terça-feira, 23 de setembro de 2003
O descanso do Cão de Guarda :- (act.2)
O Cão de Guarda vai descansar durante alguns dias, porque o dono anda a bloggar noutros cantos da blogosfera, mais especificamente aqui.
Mandem um email se as saudades forem muitas.
Até breve.
NR1. a sofrer actualizações fictícias enquanto se arruma a casa...
NR2. a-metamorfose vai ganhando forma...
segunda-feira, 22 de setembro de 2003
Quatro meses :-
Há precisamente quatro meses, Paulo Pedroso estava a ser, pela primeira vez, interrogado pelo juíz Rui Teixeira no âmbito do processo que se convencionou chamar “Casa Pia”.
Hoje, encontra-se detido no Estabelecimento Prisional de Lisboa, sem que sobre ele tivesse sido formada qualquer acusação.
Há quatro meses, o Estado Português e os seus Cidadãos viram o deputado Paulo Pedroso responder da forma que lhe era exegível, ao pedido de audição feito pelo Ministério Público.
Não fosse a nossa curta história de prática democrática, e teríamos assimilado como “natural” a inteira disponibilidade de Paulo Pedroso em ser ouvido no Tribunal de Instrução Criminal; teríamos assimilado como “natural”, o seu pedido de não recusa do levantamento da imunidade parlamentar; e teríamos assimilado como “natural”, a sua inequívoca afirmação de uma inocência “desacreditada na opinião pública”.
Mas não o fizémos. A nossa des-educação em torno de valores como transparência, igualdade e responsabilidade, levou a que muitos de nós visse aí um acto de modernidade; um acto de heroísmo, no universo do serviço à causa pública. E é isso mesmo que o foi. Não pelo acto em si, mas pela ausência de referências passadas.
Com isso, Portugal tornou-se, há quatro meses, mais exigente e mais democrático.
Só que, durante os últimos quatro meses, o Estado Português e os seus Cidadãos não têm respondido na mesma linguagem, com a mesma dignidade e com a mesma maturidade democrática, ao apelo de Paulo Pedroso.
Jornalistas, políticos e figuras do Estado têm contribuido de forma irresponsável para uma ridícula degenerescência em torno do que aconteceu-ou-não-aconteceu na Casa Pia.
A sociedade portuguesa, por seu lado, tem discutido o indiscutível. Tem brincado às telenovelas com jovens de cara tapada; tem versado tecnicalidades e assumido responsabilidades laterais. Tem confiado na infinidade do tempo, e tem agido muito pouco.
Ao longo deste tempo todo, um só juíz – repito: um só juíz – achou válido o pedido de prisão preventiva feito pelo Ministério Público. E durante o mesmo período, o Estado Português não foi capaz de resolver uma contradiçao de termos: justiça sem recurso.
Com isso, Portugal tem sido, nos últimos quatro meses, assustadoramente medíocre.
A atitude de Paulo Pedroso, há quatro meses, não foi uma atitude fora do seu tempo. Foi, isso sim, uma atitude fora do seu espaço.
É que, neste tempo, já há muitos países por esse mundo fora, onde se teria respondido ao apelo de Paulo Pedroso na mesma linguagem em que ele foi feito: a linguagem da democracia socio-genética; da democracia enraizada.
domingo, 21 de setembro de 2003
Cidadão do Mundo :-
Nos primeiros 30 minutos do telejornal da RTP1 de ontem, ouvi Paulo Portas falar, em Ponte de Lima, sobre processos disciplinares a militantes do CDS/PP. Ouvi Paulo Portas falar sobre nação e tradição; sobre o "povo português que é trabalhador e se sabe divertir". Ouvi Paulo Portas falar sobre a sua presença nas festas, enquanto Ministro de Estado.
Nos primeiros 30 minutos do telejornal da RTP1 de ontem, vi Kofi Annan tocar percussão, na sede das Nações Unidas, ao lado do Ministro-Guitarrista Gilberto Gil. Vi Kofi Annan falar do Mundo e dos seus cidadãos. Vi, através das palavras de Kofi Annan, Sérgio ser aplaudido de pé.
Será que há alguma forma de eu deixar de ser cidadão de Portugal e passar a ser, exclusivamente, cidadão das Nações Unidas?
NR. Este post foi também publicado aqui.
sábado, 20 de setembro de 2003
Os "efeitos colaterais" de Isabel :-
Costuma-se dizer que as sondagens online não são "científicas". Mas, numa sociedade como a norte-americana, onde quase todas as pessoas que têm telefone têm, também, acesso à internet, não estarei muito longe da verdade se afirmar que as sondagens online são tão "científicas" como as realizadas por telefone.
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Sei que tal afirmação cheira um bocadinho a provocação, mas, de uma forma tecnico-suave, 50 mil pessoas a responder a uma pergunta na internet, deve ser suficiente para colocar o ruído estatístico ao nível do verificado numa sondagem realizada por telefone a mil pessoas. Ou não?
Vem isto a propósito da sondagem que a CNN.com está a levar a cabo durante o dia de hoje, e à interpretação que podemos fazer - ou não - dos resultados da mesma.
À pergunta "What was this week's top news story?", 83% responderam "Furacão Isabel". 83% eram, quando eu vi os resultados, quase 40 mil pessoas (endereços IP, é o termo mais correcto). Em segundo lugar, com pouco mais de 4 mil votos (9%) está a história em torno dos "87 mil milhões de dólares que George W pediu à nação para continuar a guerra ao terrorismo". Em terceiro, com 5%, a demissão do boss da bolsa de Nova-Iorque. E em quarto, com 3%, a possibilidade das eleições "antecipadas" da Califórnia serem... adiadas.
Ou seja, não tivesse sido o furacão Isabel, e George W estaria certamente a ver o seu pedido não ser muito bem aceite pelos norte-americanos. Ou melhor, o pedido não foi bem aceite, mas Isabel funcionou claramente como anestésico das críticas. Pelo menos, até para a semana, quando já não se fizerem sentir os ventos ciclónicos.
sexta-feira, 19 de setembro de 2003
Trans-atlanticismos de direita :-
Nunca os governos de Portugal e dos EUA foram tão "amiguinhos" como actualmente. E, também, nunca Portugal e os EUA tiveram governos tão à direita como os de agora.
Subtilmente, a amizade Portas-Rumsfeld parece estar a produzir alguns frutos para a direita portuguesa mais tradicional e radical.
Então não é que a edição deste ano do "CIA factbook" tem, no fim da secção dedicada a Portugal, uma chamada sobre disputas internacionais que reza «Portugal has periodically reasserted claims to territories around the town of Olivenza, Spain.»
Vindo do nada, Olivença tornou-se, assim de repente, a Caxemira da Ibéria.
O bailado de Isabel (6) :-
19 de Setembro 08:00
tempestade tropical (ventos de 65 km/h)
40.3N 79.5W
34 km/h NNW
Kitty Hawk, Carolina do Norte [imagem: MSNBC]
Isabel perdeu o "estatuto" de furacão e é agora uma tempestade tropical, ainda suficientemente forte para fazer alguns estragos lá mais para norte.
Nestas latitudes, inundou toda a linha costeira da Carolina do Norte e da Virgínia; deixou centenas de milhares de pessoas sem energia eléctrica durante várias horas; provocou prejuízos de milhares de milhões de dólares e, até agora, 14 mortos. Pelas experências anteriores, este número irá, infelizmente, ser maior: muitas pessoas, ansiosas por regressar a casa, irão tentar atravessar estradas inundadas por rios, ou irão tentar afastar árvores e cabos eléctricos caídos. 60% das vítimas dos furacões resultam de acidentes que ocorrem nos dois dias seguintes à tempestade.
Aqui, vamos regressando à normalidade. Se não fossem algumas árvores caídas, não nos aperceberíamos que os braços de Isabel passaram por aqui perto. Está um dia de Sol igual aos de Lisboa e é altura de regressar ao "ground state".
quinta-feira, 18 de setembro de 2003
O bailado de Isabel (5) :-
18 de Setembro 13:00
categoria 2 (ventos de 160 km/h)
34.9N 76.1W
28 km/h NW
[imagem: NOAA]
Os ventos fortes já cá chegaram. As árvores são agora a maior ameaça. Numa terra onde há centenas de vezes mais árvores do que pessoas, é o mesmo que dizer uma grande ameaça. Talvez só minorada pelo facto de, no Inverno passado, ter havido uma enorme tempestade de gelo que destruiu muitas das que estavam mais frágeis.
Estamos sem luz e o acesso à internet é agora feito por modem. O rádio a pilhas também serve para nos mantermos informados.
Acho muito interessante a fotografia que aqui posto. Repare-se que é claramente visível, a noroeste, a dispersão da tempestade devida à interacção da massa do furacão com a placa continental.
O bailado de Isabel (4) :-
18 de Setembro 11:00
categoria 2 (ventos de 160 km/h)
34.4N 75.7W
28 km/h NW
[imagem: The Weather Channel]
Os furacões são fenómenos muito previsíveis. Mas, mesmo assim, não deixa de ser interessante constatar quão precisa foi a previsão, avançada há 5 dias, de que Isabel iria chegar à costa da Carolina do Norte na tarde de quinta-feira.
Os furacões - também chamados de tufões ou ciclones, noutras regiões do mundo - são fenómenos de larga escala temporal e espacial. São gigantescas massas de ar que se formam nos oceanos e se vão alimentado, ao longo de vários dias, das correntes quentes dos trópicos, até perderem toda a sua energia ao interagirem com as massas continentais.
Essa larga escala temporal e espacial torna-os objectos poderosos, mas "domesticáveis" - têm um enorme poder de destruição, mas é possível prever com grande antecedência o seu comportamento. E isso é um ponto a nosso favor.
Ao contrário, os tornados são fenómenos de pequena escala temporal e espacial. Pequenas perturbações locais na atmosfera, levam à formação de tornados, os quais nunca duram mais do que umas dezenas de minutos, e não se propagam por mais do que alguns kilómetros. Com ventos que podem atingir os 500 km/h (os de um furacão nunca passam dos 250 km/h), os tornados são fenómenos temíveis devido à sua imprevisibilidade.
A Natureza é uma coisa curiosa. Imagine-se um fenómeno com a dimensão de um furacão e a imprevisibilidade de um tornado. Ou um vírus contagioso como o ébola, mas com um período de incubação igual ao do HIV. Ou, ainda, um animal com a capacidade reprodutora de uma tartaruga gigante e "armado" com uma inteligência humana.
Às vezes, fico com a impressão que o "Anthropic Principle" faz todo o sentido.
A minha costela turca :-
Andei durante semanas a hesitar, mas hoje arranjei coragem e entrei. Ia morrendo de susto quando li o que por lá se escreve. Há dias em que me apetecia ser turco.
quarta-feira, 17 de setembro de 2003
Mensagens codificadas (3) :-
O meu blogue preferido "liga-me", mas não me "linka".
Descobri que o Nietzsche & Schopenhauer não é escrito por quem eu pensava. Ou será? O meu cérebro está num estado de elevada degenerescência.
O Adufe deu início a uma rúbrica, por causa de uma pergunta que aqui foi feita: Quem é que imagina que Paulo Portas possa verdadeiramente acreditar no "milagre de Nossa Senhora de Fátima"?
O Filipe Nunes voltou finalmente a postar; o Miguel Cabrita diz que alguns dos posts que aqui se publicam são um pouco caniches; a Mariana Vieira da Silva anda a chamar as coisas pelos nomes; e o Pedro Adão e Silva foi fazer surf para o Bali, quando as ondas por aqui estão muito maiores. Relativiza-se Portugal.
NR: No seguimento de um post anterior, a tradução para inglês do Cão de Guarda, feita automaticamente pelo Google, passa a estar disponível na Coluna Invertebrada, à esquerda.
Gatos de Schrödinger (3) :-
A computação quântica é uma ideia que anda a borbulhar na cabeça de físicos e matemáticos desde a altura do Feynman. E nos últimos anos, tem vindo a fazê-lo muito mais intensamente.
Mas embora ainda estejamos longe da transição de fase, o certo é que já há alguns textos que conseguem descrever, em linguagem clássica, o que é que se entende por computação quântica. Um deles é este, escrito por Jacob West do Caltech.
O bailado de Isabel (3) :-
16 de Setembro 23:00
categoria 2 (ventos de 180 km/h)
28.5N 71.7W
11 km/h NNW
[imagem: Earth Observatory, NASA]
A intensidade dos ventos parece ter diminuido consideravelmete nas últimas horas, embora se espere que possa vir a aumentar novamente, antes de Isabel chegar a terra na tarde de quinta. Tudo depende da forma como decorrer a interacção entre duas massas gigantes de ar: aquela associada ao furacão e a da corrente de ar quente do Golfo que é presença constante, durante o verão, na costa este norte-americana.
O estado de emergência foi hoje à tarde declarado pelo Governador da Carolina do Norte. Cerca de 100 mil pessoas já foram evacuadas dos Outer Banks e outras tantas poderão vir a sê-lo a qualquer momento. Há zonas em que a evacuação é obrigatória e outras em que ainda é voluntária.
Hoje tínhamos à porta de casa, uma folha impressa com uma série de instruções e regras de como proceder no caso de o furacão atingir fortemente esta zona. Perante o cenário pouco provável de termos que evacuar, já sabemos que nos virão bater à porta para zarparmos em direção a Oeste. O depósito do carro já está cheio.
Todos estes "preparativos" são feitos com uma enorme serenidade e apoiados por uma impressionante rede pública de gestão de informação e de decisão. Enganam-se muito os que pensam que não existem estruturas públicas eficientes nos EUA. Sobre isto, escreverei um dia mais tarde. Há muito para se dizer sobre o assunto. Muito, mesmo.
À tarde comprámos alguma comida enlatada e várias garrrafas de àgua - os garrafões de um galão já estavam esgotados. A isso juntámos uma garrafa de Merlot tinto da Califórnia e 250 gramas de um paio único. Não há nada como uma tarde de chuva intensa a meio da semana. Já só falta escolher o CD. Legião Urbana? ...
terça-feira, 16 de setembro de 2003
Os neurónios do Pacheco Pereira :-
A discussão em torno da quantidade de neurónios activos no cérebro de Pacheco Pereira despertou-me imensa curiosidade.
Primeiro, porque não é todos os dias que a discussão política atinge tão elevada elaboração linguística. Quero dizer, a expectativa é que os políticos se chamem nomes uns aos outros, e não que elaborem a sua argumentação com recurso a palavras complicadas como "neurónio".
Segundo, porque o porta voz do CDS/PP terá dito que Pacheco Pereira só utiliza "metade dos neurónios" de cada vez que se refere a Paulo Portas. E isso fez-me deitar no sofá e elaborar uma questão profunda: Quanto é que é "metade dos neurónios". Será um? Serão dois? Ou 50 mil milhões?
Por fim, esta polémica leva-me a questionar sobre quantos neurónios terá Paulo Portas activos, quando fala "a Portugal e aos Portugueses".
Começemos pelo princípio. A palavra "neurónio" pertence a uma categoria muito restrita de palavras que perderam, por completo, o sentido na elaboração semântica do discurso político português. Entre outras, enquadram-se aí palavras como "inteligência"; "gestão"; "visão"; "planeamento"; "investimento" e "inovação".
Mas o recurso recente à palavra "neurónio" deixou-me optimista. Depois de já na passada semana o presidente do IEP se ter referido à "teoria do caos" para justicar a queda de uma ponte no IC19, já faltará concerteza pouco para termos o Manuel Monteiro a falar de "quarks", ou o Bagão Félix a falar de "buracos negros".
Mas se é verdade que a nossa relação com as palavras parece estar a melhorar, o mesmo já não se poderá dizer da nossa relação com os números.
Dizer "metade dos neurónios" é vago. Muito vago, até. E se a metade do Pacheco Pereira for maior do que a totalidade do Pires de Lima? Ou se um quarto dos neurónios do primeiro forem tantos como a média ponderada, pelos anos de militância, do número de neurónios de todos os dirigentes do CDS/PP? Será que 75 mil milhões é um número suficiente para se poder falar de Paulo Portas? Ou serão precisos 80 mil milhões? E já agora, qual é o papel das sinapses nesta história toda?
Por último, não queria deixar de fazer referência ao cérebro de Paulo Portas.
Ao contrário de dirigentes como Pires de Lima, ou Nobre Guedes, Paulo Portas tem muitos neurónios e muitas sinapses. Tem, aliás, muitos mais do que os necessários para produzir os discursos elementares que faz sobre nação, defesa, justiça, imigrantes e solidariedade social.
E é isso que faz dele um político perigoso. Ele sabe exactamente - ao contrário de muitos dos que o rodeiam - que aqueles são discursos elementares que pretendem ressonar com os instintos mais básicos da sociedade portuguesa.
Quem é que imagina que Paulo Portas possa acreditar verdadeiramente no "milagre de Nossa Senhora de Fátima"?
O bailado de Isabel (2) :-
15 de Setembro 23:00
categoria 3 (ventos de 195 km/h)
26.1N 70.2W
11 km/h NW
[imagem: NASA]
Estamos a chegar ao ponto sem retorno. Entre o furacão e a costa dos EUA já só quase existe a corrente do Golfo - uma corrente de ar quente que servirá como potencial alimentador da tempestade. Esta é a noite em que todas as borboletas terão que bater as asas para afastar Isabel.
Amanhã é dia para se começar a tomar algumas precauções, se se confirmar o mais provável. Àgua engarrafada e comida enlatada, é o mais importante. O depósito do carro cheio com gasolina, algum dinheiro na carteira, uma lanterna, um rádio a pilhas, o telemóvel e o portátil com as baterias carregadas, completam a lista.
Embora a mais de 200 km da costa, o sítio onde nos encontramos poderá vir a sentir, com alguma intensidade, os efeitos de Isabel. Mas nada que se compare com aquilo que sentirão as gentes do mar; com aquilo que já sentem. As ondas começam a crescer. É preciso olhar pelos barcos...
Dog of Guard :-
Há uns meses, encontrei uma edição norte-americana de um livro escrito há 150 anos por dois portugueses.
José da Fonseca e Pedro Carolino, escreveram, em 1855, um livro original e ousado para a altura. Com o longuíssimo título "O Novo Guia da Conversação, em Portuguez e Inglez, em Duas Partes: The New Guide of the Conversation, in Portuguese and English, in Two Parts", o livro pretendia ser um guia de vocabulário português e inglês, destinado aos estudantes portugueses da época.
A edição norte-americana, que tive a sorte de encontrar, é de 2001 e tem o sugestivo nome "English as She is Spoke". O mais inesperado, é que esta não é a primeira edição deste livro nos Estados Unidos. De facto, já é - que eu saiba - a terceira. A questão que se põe é saber porque é que este livro obscuro despertou, e continua a despertar, tanto interesse nos Estados Unidos.
Embora tenha sido escrito com todas as boas intenções do mundo, o livro é uma autêntica obra de arte no que à má tradução diz respeito. José da Fonseca e Pedro Carolino tiveram a visão de editar um livro de vocabulário português e inglês. Só que... não tinham dicionário de inglês-português, nem percebiam patavina de inglês.
Na altura, o mundo francófono era a referência dos intelectuais, pelo que o livro foi escrito com a ajuda de dois dicionários: um de português-francês e outro de francês-inglês. Claro que não demorou muito tempo até que este se tornasse uma referência do humor não intencional.
Poucos anos depois da sua primeira edição (Paris, J. P. Aillaud), o livro foi editado nos Estados Unidos com prefácio escrito pelo famoso Mark Twain. Escreveu este: «Nobody can add to the absurdity of this book, nobody can imitate it successfully, nobody can hope to produce its fellow; it is perfect, it must and will stand alone: its immortality is secure». E assim o é, 150 anos depois.
E por falar em traduções. Que tal a tradução automática que o Google faz do Cão de Guarda?
segunda-feira, 15 de setembro de 2003
O bailado de Isabel (1) :-
15 de Setembro 17:00
categoria 3 (ventos de 200 km/h)
25.6N 70.0W
13 km/h NW
[crédito da fotografia: NOAA]
Desgraçadas borboletas! Ao que tudo indica, o Isabel vai chegar à costa este dos EUA lá para quinta-feira à hora de almoço. Embora tenha perdido potência nos últimos dias, não deixa de ser preocupante saber que o fará com ventos próximos dos 200 km/h. E, infelizmente, vai fazê-lo num dos sítios mais bonitos e frágeis da costa este norte-americana: os Outer Banks, na Carolina do Norte.
Por lá, ainda há praias extensas e selvagens; e tartarugas gigantes. Os Outer Banks são a terra de pescadores bravos como já há poucos. E são o cemitério de barcos do Atlântico - o Vera Cruz VII afundou lá em 1903 e o Oriente quatro anos depois. Na lindíssima vila de Ocracoke, viveu o pirata Barba Negra até ao dia em que foi morto a mando do governador inglês da Virgínia. Os Outer Banks são uma terra do mar. E como todas as terras do mar, são uma terra frágil.
De todos os sítios onde Isabel poderia terminar o seu bailado, os Outer Banks são o que menos o merecia. Por serem únicos. Pode ser que ao se aproximar, Isabel se aperceba da sua singularidade. E decida então ir terminar o bailado nas profundas àguas do Atlântico.
sábado, 13 de setembro de 2003
Volto já :-
Volto na segunda à noite.
Entretanto, espero que esta coisa, de nome Isabel, não tenha a veleidade de se dirigir para estas bandas enquanto eu estiver blogosfericamente ausente.
E, já agora, há um pedido de desculpas a fazer à formiga. Pelo encontro falhado da passada quinta-feira, no "El Farol" de Santa Fé.
Mas fica a promessa de que por lá passarei na próxima semana. Para que possamos falar do deserto a 2 mil metros de altitude e dos índios que por lá ainda vivem. E, ainda, da mais bela sala de ópera do mundo e das galerias de arte da Canyon Road. Pelo meio, teremos que falar da ciência que se faz lá para os lados do "Santa Fe Institute" e do "Los Alamos National Laboratory". E, enquanto falamos destas coisas todas, podemos ir comendo umas tapas e bebendo uma sangria. No fim, à sobremesa, poderemos tentar decidir sobre que "efeito borboleta" será necessário provocar, para que uma frequência de ressonância seja gerada nos cérebros de alguns dos dirigentes políticos portugueses...
Até para a semana.
[crédito da fotografia: NOAA]
sexta-feira, 12 de setembro de 2003
"Onzes" de Setembro (2) :-
O adufe chama a atenção para uma frase infeliz no meu post anterior.
No segundo parágrafo, afirmo "Sem nada que o fizesse prever, o Público decidiu evocar a passagem dos 30 anos sobre o golpe de estado militar no Chile." Obviamente que a primeira impressão com que se fica é a de que eu acho que não era expectável a referência, por parte da comunicação social, à passagem dos 30 anos sobre o violento golpe de estado militar no Chile.
Infelizmente, a minha intenção não era essa, embora assim o possa parecer. No seguimento do que está escrito no primeiro parágrafo do post anterior, aquilo que eu pretendia afirmar era: «Andávamos nós aqui na blogosfera a discutir a questão do Chile e dos Estados Unidos e de repente acordamos e o jornal Público faz referência aos dois acontecimentos». É nesse sentido que eu considero "inesperado"; no sentido em que se repetiu na biosfera a polémica iniciada na blogosfera. Sobre isto, assumo que as palavras possam não ter sido as mais bem escolhidas.
Mas o adufe ficou incomodado com outras afirmações feitas no mesmo post. Só que sobre essas não há retorno possível.
A referência legítima, por parte da comunicação social, aos 30 anos do "11 de Setembro" do Chile, não siginifica que se possa construir uma ponte simbólica entre um edifício-sede do poder militar americano destruído por um atentado terrorista, e um general chileno assassino apoiado pelo mesmo poder 30 anos antes. Essa simbologia de que terá sido feita "justiça" é o que está estampado na capa do Público. É isso que eu considero uma "pornográfica tentativa de sedução" dirigida a uma certa esquerda em que não me revejo. E, se calhar, é também a essa simbologia que o Pacheco Pereira se refere e até é capaz de ter razão.
"Onzes" de Setembro :-
Pois é. Aquilo que se pensava ser exclusivo da blogosfera utrapassou as fronteiras cibernáuticas e foi parar direitinho à biosfera; mais propriamente à capa do jornal Público de ontem.
Sem nada que o fizesse prever, o Público decidiu evocar a passagem dos 30 anos sobre o golpe de estado militar no Chile. E fê-lo com honras de primeira página. Na mesma página, note-se, onde é evocada a passagem dos dois anos sobre os atentados terroristas em território norte-americano.
As reacções não se fizeram esperar. Alguma direita, sente-se ofendida com a referência ao General Pinochet. E alguma esquerda, só não se manifesta, porque foi apanhada de surpresa e não estava à espera de tamanha prenda.
Mas a capa do jornal Público é tudo menos inocente e "politicamente correcta". É, aliás, uma grande provocação. Porquê fazer capa com as fotografias de Pinochet e do Pentágono, se os símbolos máximos de um e de outro "11 de Setembro" são o palácio de La Moneda e as torres do World Trade Center?
A substituição de símbolos civis por militares não foi, obviamente, acidental. Foi, até, um gesto muito malandro. Ao fim e ao cabo, foi o poder militar americano - que se pensava imbatível, mas cuja sede máxima aparece na fotografia da capa com a fachada caída - que ajudou Pinochet a destituir um governo de legitimidade democrática.
E isto é um claro piscar de olhos à esquerda, como há muito não se via lá para os lados da Rua do Viriato. Só que pela esquerda que me toca, não aceito tão pornográfica tentativa de sedução.
P.S. É simplista a afirmação de que o dia de ontem foi sentido de forma diferente, em sítios diferentes. Mas não há forma alguma de lutarmos contra o relativismo, no que toca a emoções. Para duas crianças suecas, o dia de ontem foi trágico. E não teve nada a ver com o Chile ou com os Estados Unidos. Teve sim a ver com um assassinato inexplicável. O assassinato de uma mulher, ministra sueca dos negócios estrangeiros e adepta incondicional da adesão da Suécia ao euro.
quinta-feira, 11 de setembro de 2003
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