sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004

Pontos de vista ...

Pois é! Tudo depende da informação.
Ouvido, cá por casa, na boca de um otimista em relação ao Portugal-Inglaterra:
"Portugal meteu 2 golos ! " Espantei-me, mas antes de me alegrar, ele concluíu : "Um na própria balisa"
Por vezes encontro estranhas semelhanças entreo futebol e a nossa terra...
M.L.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

Cá vamos, cantando e rindo...

Já se sabia, mas é bom ver em letra de imprensa [ é que ninguém inventa, nada não senhor!]
« Pouco depois de assumir a pasta da Justiça, Celeste Cardona defendeu a extinção do Gabinete de Auditoria e Modernização por considerá-lo inútil.
Quase dois anos depois, o gabinete onde já trabalharam 16 funcionários conta apenas com o motorista, já que todos os outros foram transferidos. Essa realidade não impediu a ministra de nomear, a semana passada, dois jovens quadros para a direcção.
A nova directora tem 30 anos e licenciou-se em 1997. O sub-director tem 29 anos, licenciou-se em 2001 e tem como única experiência profissional a de consultor de um gabinete do Ministério.
O «Diário de Notícias» diz que estas nomeações estão a causar mal-estar no Ministério da Justiça, dado que os dois quadros têm pouca experiência e vão receber os ordenados máximos permitidos na Função Pública, ficando imediatamente abaixo do primeiro-ministro.
Assim, a direcção vai receber uma remuneração de 5541 euros e o sub-director vai receber 5380.»
Então? Poupadinha, trocou 16 por 2, e ainda jovens com muita vida à frente. Ganda negócio!!!!
M.L.

Por onde andam os colos ?

Desde que se inventaram as cadeirinhas "de transportar bebés" tornou-se moda levar as criancinhas nessas famosas cadeirinhas, que parecem cestos de supermercado acolchoados, em vez do os transportar simplesmente ao colo. É certo que ainda existem as "bolsas canguru" onde algumas mães mais antiquadas levam os seus bebés perto do coração, mas cada vez são mais raras. O que está in é tirar a criança do carro nesse "artefacto" e levá-la directamente para o infantário, encaixada no cesto/ cadeirinha.
A completar, já há anos que me faz impressão ( que isto agora é coisa já antiga) o facto de nas zonas reservadas, nos transportes públicos, a "grávidas, deficientes e pessoas com crianças de colo", por sistema, vemos uma criança pequenina sentada no assento e a avó ou mãe, carregada de sacos, com ar fatigado, agarrada ao varão. Acho profundamente antipedagógico! Aquele lugar é para um adulto com uma criança ao colo ! A criancinha repimpada num grande assento, a baloiçar as pernas e por vezes a ferrar pontapés na pessoa da frente e o adulto a vigiá-la em pé é um absurdo. É mau porque o menino imagina que "tem direito" aquele lugar, e é mau porque acaba por não ter o tal colo que só lhe fazia bem.
M.L.

Carnaval e Consumismo

Agora que o Carnaval está à porta, não se entra em qualquer supermercado ou "loja de 300" sem sermos rodeados dos mais variados fatos de máscaras. Cada ano se escolhe e compra já feito um fato que corresponde ao que é "moda" para esse ano nas crianças.
Como é? Moda na imaginação?
Quando eu era criança brincava-se muito ao "faz de conta", o que quer dizer aos polícias e ladrões, aos pais e filhos, aos médicos, aos cowboys e índios, às escolas... eu sei lá. era o que apetecia no momento, mas para isso quase sempre tinhamos que nos vestir de acordo com o "teatro" que se fazia. Roubava-se os sapatos e carteiras da mãe, colchas de cama, cabides, lenços, panelas, muita roupa dos mais crescidos e adaptações várias. Claro que não se ficava tal e qual o modelo, mas a imaginação fazia o resto.
Esses teatros que duravam todo o ano, tinham o seu ponto alto no Carnaval. Aí a máscara era mais "a sério" o que quer dizer que havia uns retoques da família, a avó fazia uma saia comprida de "dama antiga com uma cortina, ou um colete de pirata de um antigo do avô mais uns bordados por cima. mas aquele fato era mesmo nosso ninguém tinha um igual e podia continuar a servir para brincar o resto do ano em casa.
Não costumo ser saudosista, mas acho que estes fatos feitos em série, além de obviamente mais caros, são um pouco de usar e deitar fóra, não tem metade da magia dos meus!
M.L

Desabafo

Há uns tempos que receci via email estes comentários:

Já percebeste o que os anos 90 fizeram contigo?

1. Tentas teclar o teu pin no display do micro-ondas;

2. Não jogas paciência com cartas de verdade há anos,
ou então nunca conheceste outra forma de jogar paciência!

3. Perguntas, via e-mail, se o teu colega ao lado vai
almoçar contigo e ele responde-te, por e-mail claro:
"Dá-me cinco minutos!";

4. Tens 15 números de telefone diferentes para falares
com a tua família de 3 pessoas;

5. O motivo pelo qual perdeste o contacto
com os teus antigos amigos e colegas é porque eles
têm um novo endereço de e-mail;

6. Não sabes o preço de um envelope comum;

7. Para ti, ser organizado significa ter vários
bloquinhos de Post-It de cores diferentes;

8. A maioria das piadas que conheces, recebeste por
e-mail (e ainda por cima ris-te sozinho...);

9. Já dizes o nome da firma onde trabalhas quando
atendes o telefone em casa;

10. Digitas o 0 para telefonar de tua casa;

11. Vais para o trabalho quando ainda está escuro,
voltas para casa quando já escureceu de novo;

12. Quando o teu computador pára de funcionar, parece
que foi o teu coração que parou. Ficas sem saber o que
fazer, sentes-te perdido;

13. Sentes-te nu quando te esqueces do telemóvel;

14. Leste este email e balanças-te afirmativamente com
a cabeça em diversos pontos;

e o pior é que é mesmo verdade!!!!

Então o ponto 10 como os telefones são mesmo iguais, é todos os dias!
M.L.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004

INFÂNCIA DESVALIDA (3ª parte)

E agora o Sr. Villas ( acho que é com éle duplo) Boas. Este senhor que já é conhecido há bastante tempo porque é uma classe especial : um fura-vidas jet-set. É amigo íntimo de toda a gente importante, consegue subsídios e dinheiro lá para o seu lar, vindo de toda a parte. Aliás, no site da Fundação, até lá vem que é apadrinhado pelos Duques de Bragança, atenção que não é qualquer um ! Existe cá pelo burgo este tipo de pessoas que desenvolvem muito trabalho vistoso porque sabem mexer os cordelinhos necessários.
Por outro lado os números de crianças recolhidas, parece-me desadequado. Não é que não haja necessidade de socorrer centenas de miúdos, mas, por favor, não os juntem. Não é um supermercado de protecção à criança! Uma casa que tenha mais de umas 12 crianças começa a não ser humana nem natural. Conheço outros casos de pessoas que descobrem fontes de financiamentos para as suas acções beneméritas e conhecem todos os truques para aproveitarem os subsídios possíveis mas nenhum tão vaidoso como este senhor. Não foi preciso estas declarações infelizes para o conhecer. Até acho que foi um bem ele ter dado esta barraca, sempre foi uma maneira de se poder arejar uma história que precisava de um pouco de ar fresco.
M.L.

INFÂNCIA DESVALIDA (2ª parte)

Claro que há casos, muitos até, onde a miséria é moral. Crianças maltratadas, violadas, rejeitadas. Meninos criados em ambiente de abandono, de indiferença. Mas também aí, na minha opinião há trabalho a fazer com a família. Essas famílias “disfuncionais”, desde que se invista, podem receber orientação e “tratamento”. São sempre situações complicadas mas para isso é que há técnicos e trabalho de equipa, não é? Por outro lado, para além dos pais, é muitas vezes possível encontrar no agregado familiar, tios, padrinhos, primos, cunhados, compadres, eu sei lá, parentes mesmo afastados que com o apoio económico que se vai gastar quando se interna uma criança numa instituição, poderão dar uma resposta muito mais semelhante à vida que a criança tinha na sua casa, e portanto mais adequada.
Temos depois as “famílias de acolhimento”; famílias apoiadas por serviços públicos a quem se paga para receberem a tal criança que não tem lar próprio. Já é uma resposta mais delicada, terá de haver muita vigilância do que se passa entre aquelas paredes, mas... é um lar, uma casa.
E também há a adopção. Também é uma resposta que convém ser cuidadosa, mas sem fundamentalismos. Muitas vezes os técnicos que decidem quais os casais com perfil adoptante, projectam as suas ideias, e muitas vezes inacreditáveis estereótipos. Os processos, como é norma na nossa terra, arrastam-se anos e anos pondo á prova a capacidade de resistência dos candidatos a pais.
E tudo isto, é sempre melhor do que o internamento, que deve ser o último recurso.
M.L.

INFÂNCIA DESVALIDA (1ª parte)

As declarações do Dr. Vilas Boas a uma jornalista com chamada na 1º página, causaram, como seria de prever, o maior ruido. Aqui na blogosfera o ruído, felizmente, atingiu altíssimos decibeis.
Sobre este triste assunto tinha tanto a dizer que, se calhar desdobro os comentários em vários posts para não ficar um lençol interminável.
Porque interminável é, de facto, o relato do que se passa com as crianças do nosso país. Ainda vemos por aí, alguns "Asilos da Infância Desvalida" o que é um bom nome, que de verdade ninguém lhes vale, e por vezes até seria melhor que os deixassem mesmo em paz! Um ponto a favor: acredito piamente, que muita gente esteja a agir com a melhor das intenções - aquela que costuma encher o inferno.
Uma criança nasce e vive num meio hostil, seja degradado materialmente, seja quanto a sentimentos. O que fazer? O bom-senso diz-nos que se calhar antes de mais influir sobre o meioi. Ver o que se passa. Como dar melhores condições aquela família. Como ajudar verdadeiramente. Mas isso é muito difícil e trabalhoso. A velhíssima parábola de ser melhor ensinar alguém a pescar do que dar-lhe o peixe, implica muito tempo e paciência. Dar o peixe, pode ser caro ( então hoje, o peixe só congelado!) mas é apenas isso e despacha-se depressa. Ensinar a pescar, é ainda mais caro ( implica a cana, o anzol, o isco) e leva muito tempo, que há quem diga que "é dinheiro" e muita paciência e compreensão.
O primeiro dos passos a dar em relação a uma criança que está mal é tratar toda a família de que ela é um sintoma. Castigar a família, é uma solução, mas é a pior. E retirar uma criança de uma família sem procurar outra solução é um erro grave - mesmo que seja para a colocar num lar de luxo ( o que o do Vilas Boas também não é)
M.L.

Quando o Professor era candidato

A troca de galhadertes entre o Dr. Santana e o Dr. Rebelo de Sousa tem servido para animar a malta e já provocou um dos posts mais engraçados e bem sucedidos do Daniel no Barnabé.
Mas a lata do professor também tem que se lhe diga! Se eu também lhe desse notas como ele gosta de fazer às pessoas dava negativa em memória! Lá para 1989 (ena pai, há tanto tempo, no outro milénio...) quando Marcelo concorria à Câmara de Lisboa, ouviram-se mimos do tipo de que ele "cantava o fado", afirmava em plena campanha que Sampaio fazia o que mandava o PC e a campanha estava entregue a quadros comunistas ( que susto!) Garantiu que ia por fim à carreita política de Álvaro Cunhal, para não falar do tal mergulho no Tejo a provar que a água era cristalina... Tive acesso a estes mimos através de arquivos de crónicas de TV. Cá se fazem e cá se pagam, não é ?
M.L.

Compras e Vendas

Não sei se será feitio ou educação, mas sempre me incomodou ouvir a palavra "comprar" usada em sentido, digamos, simbólico. Para mim, compram-se coisas, usar esse termo para o que não seja de facto comprável, deixa-me com pele de galinha. No futebol "compram-se" pessoas com naturalidade: o clube tal comprou o Nini, vendeu o Chiquinho, e o outro clube comprou o Cabeçada e vendeu o Gato. Agora acabo de ouvir na rádio, por operadores turísticos, que fulano ajuda a vender o Algarve.
Por favor!!!!!!
Não me vendam o Algarve, que faz falta cá à malta.
Que tal venderem o governo, se alguém o quiser comprar?
M.L.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2004

Sentimentos, Emoções e Números

Como muita gente esperava as "arguídas" de Aveiro foram absolvidas. Aparentemente, o tribunal fez uma pirueta legal, para justificar uma sentença que grande parte do país desejava. Chamo pirueta legal porque, absolver por "falta de provas", depois de tantos meios utilizados, alguns que até me envergonham como cidadã ( por semelhantes ao que se utilizaria para um traficante de droga ) como as escutas telefónicas, exames físicos, vexames totais! Se mesmo assim não têm provas, o que justificou o julgamento? O que tenho ouvido é que o sentimento geral foi de alívio. Nem consigo conceber o que seria se toda aquela gente fosse castigada. Como era, metiam as mulheres e os maridos na cadeia? E os filhos que já existem, ficavam na creche da prisão? Há absurdos que só com muita imaginação se concebem.
Mas quando me atrevo a dizer "que grande parte do país desejava" não é a minha intuição que fala, desta vez são números. Se a sondagem feita fala verdade, grande parte do país quer um referendo, quer que esse referendo seja feito com brevidade, prepara-se para desta vez não se distraír e votar mesmo, e ... por fim mas não por último, vai votar pela despenalização da I.V.G.
Isto se os números não mentem.
é certo que isto é uma batalha, não é o fim da guerra, mas já é uma luzinha.
M.L.

Diferenças

Num passeio pela blogosfera emcontrei neste blog
http://www.os-caes-ladram-e-a-caravana-passa.weblog.com.pt
um post "soldados americanos revistam terrorista".
Lembrei-me que vem aí o 25 de Abril e da fotografiam do miúdo a enfiar o cravo na espingarda do soldado...
Outros tempos.
M.L.

Amiga do Diabo

O que vou dizer deve estar políticamente incorrecto, porque toda a gente diz o contrário. É mesmo remar contra a corrente. Mas...
Hoje fui a uma farmácia. Simplemente comprar aspirina. Havia várias pessoas à minha frente e era fácil ver as receitas que iam mostrando ao farmaceutico. Nenhuma dessas receitas tinha menos de 3 ou 4 medicamentos e pelos conselhos que ia ouvindo esses 3 ou 4 seriam para as mesmas mazelas: "Ponha esta pomada à noite e esta pílula é para depois das refeições; o comprimido é logo ao acordar e este líquidozinho se tiver muita comichão" por exemplo. (confesso que inventei mas o estilo é mais ou menos este) A pessoa tinha uma alergia e procurava alívio. Certo, não é?
Então porque é que a saúde mental tem tão má fama?! Estou cansada de ouvir "está encharcada/o em drogas! foi ao psiquiatra e parece um zombi". Quando vou saber o que é, na maioria das vezes é uma depressão tratada com um ansiolítico e um antidepressivo. Duas drogas complementares. E que, obviamente, se são fortes demais para o doente ele deveria informar o médico para alterar a medicação! Porque das duas uma: ou é demasiado forte, como tratar uma constipação com antibiótico de 4 em 4 horas, e o médico deve acertar o diagnóstico, ou é o medo da droga em si que faz ver tudo com cores muito escuras.
Porque é que a alergia precisava de 4 drogas? Esse doente estava encharcado em pomadas?Porque há tanto receio da psiquiatria? Mas devo ser eu que estou enganada porque, como disse ao princípio, toda a gente pensa ao contrário.
M.L.

Portugal versus Estados Unidos

Já se sabia da existência de modelos morais diferentes - e ainda bem. Também não é nenhuma novidade o puritanismo dos Estados Unidos com aspectos histéricos, quando não caricatos - lembram-se do menino que no Jardim de Infãncia deu um beijinho numa menina e teve de mudar de escola por assédio sexual ? - que não tem nada a ver com os nossos costumes. O que me faz sorrir hoje é o leque de 180º em certos aspectos. O candidato democrático mais bem colocado ficou debaixo de fogo por qualquer coisa da sua vida privada, passada há tempos e que envolvia saias. Que eu percebesse ninguém se queixou, nõa houve nada de mal, talvez algo que se devia resolver entre um homem e a sua companheira como 2 pessoas adultas. mas o barulho já é muito.
Nós temos cá alguém, que se perfila como candidato à presidência, e que o mínimo que se pode dizer é que é um saboroso alimento das colunas sociais com variados affairs sentimentais. É lá com ele. Nunca lhe atiraria nenhuma pedra. Mas, lá que tem graça tem. o que nuns casos é defeito noutros é vantagem por tornar a pessoa mais humana.
M.L.

Assim vai o país

Lido noutro Blog ( Blogo Social Português)

« Salário Médio em Espanha: 1400 euros
Salário Médio em Portugal: 600 euros»


Ora, como se sabe, isto de médias é a velha graça de "se tu comes um frango e eu não como nada quer dizer que cada um comeu meio frango" podemos concluir que dado o nível de escandalosa riqueza que alguns dos nossos compatriotas exibem, a nossa classe média , o que dantes se chamava "remediados" ( palavra acanhadinha e conformada....) desaparece do mapa!
M.L.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2004

Pais e Filhos

Estão neste momento a passar em cinemas de Lisboa pelo menos três filmes que tratam de relações entre pais e filhos. Refiro-me a filhos adultos e a relações difíceis.
Um é a Invasão dos Bárbaros, e outro o Big Fish; o terceiro ainda não o vi portanto não vou falar hoje. Destes dois, gostei muitissimo para além das razões técnicas, que possivelmente não domino, sobretudo pelas emoções que despertam. E é de estranhar porque, até há pouco, este tema era muito pouco aproveitado. Com crianças pequeninas, sim senhor, mas conflitos resolvidos com ternura final entre filhos-homens e pais-idosos é um ângulo novo pelo menos para mim. E já vi muito cinema! E sobretudo porque a ternura entre homens ainda é invulgar, mesmo na vida real o homem gosta de pensar que "domina " a emoção e não a deve mostrar. Que belo pode ser mostrar o contrário. É mesmo a emoção que torna o homem verdadeiramente homem.
M.L.

A minha política é o trabalho

Li ontem, numa notícia de rodapé, num telejornal, um facto que depois tentei confirmar mas ou a notícia nunca saiu do rodapé ou já tinha sido lida. Pode ser que achassem que não tinha importância. E era que, numa autarquia cujo nome não fixei, tinha havido eleições intercalares. Normal, não é? Parece que por problemas com a Assembleia Municipal pelo que dizia no tal rodapé. Tinha ganho o partido X. Também normal. O que me deixou a pensar é que de quatrocentos e tal eleitores ( devia ser terra pequena ) contaram ao todo uns quarenta votos, mais coisa menos coisa. Pelas minhas contas uns 10% do universo eleitoral... Ainda me deu para pensar que contando com os eleitos para a junta, assembleia etc e provavelmente suas famílias, não votou ninguém “de fóra”. É o que se pode chamar uma eleição bastante familiar, não será?
Mas o que se passa em Portugal? Confesso que me inquieta e perturba muito. Há um desinteresse que parece patológico. Lembra-me tempos de que não gostei.
M.L.

As raparigas lá de casa

Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silencio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa.


Emanuel Félix, poeta açoreano
(poema extraído do livro «Habitação das Chuvas»)

susana

domingo, 15 de fevereiro de 2004

Cuspir...para onde???

Apesar de em momentos de irritação haver quem pense que se está a andar para trás, ou que a vida “dantes” era melhor do que hoje, creio que a maioria das pessoas sabe que não é assim. Eu sou das que acha que a vida hoje é bem mais cómoda e fácil do que nos séculos anteriores! E, de um modo geral, as regras de civilidade caminham nesse sentido. Vem isto a propósito, de ter ouvido a conhecida expressão cuspir para o ar ( idêntica a “quem semeia ventos”) e achar que quanto mais civilizado se é menos se cospe. É uma coisa cultural e educativa. Eu não cuspo. E o meu filho não cospe. E creio que os meus netos não cuspirão. Mas... há uns séculos era tão normal e necessário que até havia uns objectos chamados “escarradores” – creio que ainda se encontram em antiquários. Um pouco como os actuais cinzeiros, eram umas tigelinhas de loiça ou de metal, e usavam-se para cuspir lá para dentro uma vez que para o chão de um estabelecimento, escritório, etc, era feio. Hoje, dentro de casa realmente já não se faz, mas na rua, é constantemente. Já repararam nos corredores do metro? E nunca viram num sinal vermelho o condutor – por vezes de um carrão de marca – abrir o vidro e mandar uma forte cuspinhadela cá para fóra? Vamos ter esperança e acreditar que com o passar do tempo o controlo vai aumentar e as nossas ruas ficam mais limpas. Que, por enquanto...
M.L.

sábado, 14 de fevereiro de 2004

Leituras em diagonal

Recebido por email, mas não resisto a partilhar. Uma boa amostra da capacidade de reduzir muita conversa ao verdadeiramente essencial. Reparem bem no papel das insónias nestas complicadas histórias...

Marcel Proust " À la recherche du temps perdu".

Resumo: Um rapaz asmático sofre de insónias porque a mãe não lhe dá um
beijinho de boas-noites. No dia seguinte (pág. 486. I vol.), come um bolo
e escreve um livro. Nessa noite (pág. 1344. VI vol.) tem um ataque de asma
porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos.
Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito veIhinhos e
pronto.

2) Leão Tolstoi, "Guerra e Paz", (1800 páginas)

Resumo: Um rapaz não quer ir à guerra e por isso Napoleão invade
Moscovo. A rapariga casa-se com outro. Fim.


3) Luís de Camôes, "Os Lusíadas"
Resumo: Um poeta com insónias decide chatear o rei e contar-lhe uma
história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa porreiraça), têm o justo prémio numa ilha cheia de gajas boas.

4) Gustave Flaubert "Madame Bovary", (378 páginas)
Resumo: Uma dona de casa engana o marido com o padeiro, o leiteiro, o
carteiro, o homem do talho, o merceeiro, e um vizinho cheio de massa.
Envenena-se e morre.

5) William Shakespeare, "Hamlet"

Resumo: Um príncipe com insónias passeia pelas muralhas do castelo
quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe,
cujo homem de confiança é o pai da namorada que entretanto se suicida ao
saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado
o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que
dorme com a mãe, depois de falar com urna caveira e morre, assassinado pelo
irmão da namorada, a mesma que era doida e que se tinha suicidado.


6) Anónimo colectivo. Novo Testamento (4 versões)
Resumo: Uma mulher com insónias dá à luz um filho cujo pai é uma
pomba. O filho cresce e abandona a carpintaria para formar uma seita de
pescadores. Por causa de um bufo, é preso e morre.

M.L.