quarta-feira, 24 de março de 2004

Cuidado com as generalizações...

A propósito de uma polémica assanhada, ontem no , BdEpor causa de um post infeliz do Filipe Moura, senti que cada vez tenho mais razão na cautela que costumo ter nas generalizações. Não estou completamente isenta desse pecado, é claro, mas faço muita força para que, conscientemente, não caia nele. Quanto mais velha, mais consciência tenho de que nunca se pode pensar ou dizer "todos os.[............] são assim, ou assado ". Não há nada, mas nada mesmo, que não tenha muitíssimas excepções e são sempre elas que nos caem em cima quando nos julgamos cheios de razão. Vou mesmo mais longe - só há uma afirmação que se pode generalizar, e estudei-a na lógica clássica : "Todos os homens são mortais". É a única! Claro que até aqui há excepções, mas só na literatura "Tous les hommes sont mortels" da Simone de Beauvoir, ou Orlando da Virgínia Woolf, mas na vida real essa generalização está, até ao momento, confirmada. E mais nada!
Claro que no calor de uma discussão nos salta sem querer, "os funcionários públicos são assim", "os emigrantes são assado", "os franceses isto", "os homossexuais aquilo", e mais "os políticos" e os "do norte" e os ... e os... e os...nunca mais acabam as gavetas/ ficheiros onde se enfia uma categoria de pessoas. Depois é claro que quanto maior fôr o grupo maior é a hipótese da asneira. Se calhar ao falar dos vizinhos do meu prédio, se eu disser que são "todos" qualquer coisa, tenho menos hipótese de errar, e mesmo assim... vá-se lá saber.
O caso que desencadeou estes pensamentos é dos mais complicados porque falar-se de "judeus" é falar de um grupo gigantesco, muito disperso, onde cabe mesmo tudo. Da política, às artes, à ciência, ao humor, há judeus fantásticos, há uns estupores e há uma multidão de gente completamente anónima que em nada se distingue de outro ser humano qualquer.
E tem graça pensar que os maiores de todos os grupos são os que na linguagem corrente mais sofrem de generalizações. Falo de Homens e Mulheres. Qual a mulher que não diz "Isso é mesmo de homem!", ou "todos os homens são iguais!"; qual o homem que não diz "é mesmo de gaja!" ou "isto só de mulher!". E o mais curioso é que estes desabafos quando ocorrem de um sexo para o outro, são sempre críticas. Mas se estivem com atenção reparem que, pelo contrário, na boca de uma mulher ouvir-se "só uma mulher para fazer isso..." então é mesmo um elogio! O ser humano é complicado, não é?
M.L.

Olho por olho? Mas de quem são os olhos?

Olho por olho? Mas de quem são os olhos?
Desde a notícia da morte do Sheik Yassin que, como de costume, quer na imprensa quer aqui na blogosfera as opiniões se dividiram imediatamente em dois blocos antagónicos. E cada um, ainda a notícia não tinha sido completamente ouvida já tomava posições inteiramente radicalizadas. Sobretudo a ala direita disse logo: Era do Hamas, era um terrorista, muito bem feito! e, pelos vistos, até pessoas que costumavam pensar primeiro antes de falar alinharam pelo mesmo diapasão.
Isto a mim, faz-me confusão. É certo que também tenho a palavra fácil, e nem sempre recolho toda a informação possível antes de dar a minha opinião um pouco no ar. Mas este é um caso onde me parece que as implicações são tantas que se lhe deve tocar com a maior cautela. E desde já aviso que estou a dar a minha opinião, mas ela está sujeita a, ao pensar melhor, vir a alterá-la um pouco.
Mas o que me parece é que este não foi um acto de retaliação simples. Tipo "Mata-se o bicho, acaba a peçonha!" Esta é uma acção política e muito séria. E o pensar que este acto em si foi um erro não significa que se tenha muita pena da criatura, que por fim teve mesmo a morte que desejava. Que sorte a dele! Só que há muita coisa para entender. Pelo que tenho lido por aí, este homem já esteve preso nas cadeias israelitas e "foi trocado" por uns prisioneiros considerados importantes. Nessa altura podiam tê-lo julgado pelos seus crimes e até segundo a lei, creio que executá-lo. Mas não o fizeram. Para mim os tribunais servem mesmo para julgar as pessoas, existiu Nurenberg e "parece" haver um T.P.I. Mas nessa altura isso foi esquecido e o homem foi útil como moeda de troca.
Mas não. Esperaram a saída de um acto religioso, e onde ele estava rodeado de pessoas para, do ar sem grande risco para os executantes, o matarem a ele e aos acompanhantes. Aparentemente queriam fazer um mártir. Ou se não queriam então foi um erro de palmatória. Passa pela cabeça de alguém que aqueles jovens, educados para serem kamikases, vão ficar amedrontados com isto? Não será previsível que, exactamente com esta acção, fiquem cheios de um fervor religioso e intensifiquem brutalmente esses atentados?
Não percebo nada de estratégias de guerra, mas o meu bom senso levanta algumas questões
- com o poderio militar utilizado não seria possível mais simplesmente prender o homem?
- Mesmo que ele resistisse à prisão não seria menos chocante para os seus apoiantes que ele morresse nessa luta do que assim, a sangue frio?
- Acreditando na valentia israelita e que não têm medo das represálias parece correcto ir por em risco a vida de tanta gente com este gesto de desafio?
Mais uma vez repito que não tenho particular pena do Sheik e acho que lhe fizeram um favor. Mas temo o efeito de boomerang.

M.L.

segunda-feira, 22 de março de 2004

Linguagem e gerações

Não resisto a acrescentar um comentário a propósito do post que escrevi mesmo aqui em baixo.
Uma pessoa amiga que, apesar do meio anonimato das iniciais, sabe que sou eu que vou escrevendo no “Cão de Guarda”, no meio de um telefonema sobre outro assunto referiu o conteúdo do que eu tinha escrito hoje mostrando o seu acordo. Acrescentava apenas que só não percebia o que eu queria dizer com isso do governo fazer o Rendimento Social de Inserção ficar espartilhadíssimo. Que palavra era essa? Lá disse que seria o superlativo de espartilhado. Mas...es-par-ti-lha-do ? Como? De dúvida em dúvida percebi que era mesmo o espartilho que provocava a confusão. Meio incrédula lá lhe pergunto se nunca tinha ouvido a palavra. Que sim, associava-a a romances de Eça de Queirós mas não sabia bem o que queria dizer.
Bom, reconheço que há realmente uma certa diferença de gerações. Para mim o termo saiu-me naturalmente, mas se calhar é melhor deixar explicado que queria dizer“muito apertado” quase que “estrangulado”.
A verdade é que os tais espartilhos eram, do ponto de vista das mulheres de hoje, verdadeiros instrumentos de tortura que apertavam o corpo de uma desgraçada de modo a ficar com uma cintura minúscula à custa de uma enorme pressão. Hoje respiramos fundo por a moda ter desaparecido.
Contudo, se calhar não foi por acaso que me surgiu aquela imagem. Devia lá meu sub-consciente estar a pensar no terrível apertar de cinto a que todos temos sido submetidos.
M.L.

O Rei Vai Nu

É interessante como uma reportagem num jornal e, pelos vistos, uma peça que passou numa cadeia televisiva (eu não vi, por isso falo de cor) parece fazer com que toda a gente se dê conta de algo que entrava pelos olhos a dentro - que a miséria e pobreza tem alastrado de um modo alarmante. Mas bastava somar 2 mais 2. Se é conhecido o problema do endividamento das famílias portuguesas, se o desemprego aumenta como se vê, se não existem primeiros empregos para quem acaba a sua formação, o que é que se esperava?
E quanto ao endividamento, vamos lá com calma, se é certo que muita gente é uma compradora compulsiva espicaçada pelo publicidade que sugere de todas as formas o “compre-agora-e-pague-depois”, a verdade é que as grandes, mesmo grandes dívidas, se encontram no sector da compra de habitação que é um bem de primeira necessidade. No actual momento, quando uma renda vai custar o mesmo que uma amortização bancária, quem precisa de um tecto acaba por o comprar! E para aí vai o ordenado de um dos membros da família. Portugal tem um mercado imobiliário que não tem em conta a média geral dos nossos rendimentos.
E que a antiga “classe média” se tem evaporado é óbvio. Ainda há uns restos, não sejamos completamente radicais, mas emagreceu muito á conta dos novos pobres. E mete bastante raiva o discurso enfastiado de uns senhores que displicentemente dizem que “eles” não querem é trabalhar, esses pobres são mas é uns grandes preguiçosos!
A entrevista do Padre Agostinho Jardim ao Público faz mais pela imagem da Igreja do que todas as missas rezadas neste mesmo domingo. Ele teve a coragem de mostrar a nudez do Rei. O Rendimento Mínimo, crismado agora de R.S.I. foi espatilhadíssimo, porque o que se pretende é acabar de vez com a medida mais generosa que o PS criou. Tinha erros, sem dúvida. O maior era não ter dado condições de ser convenientemente seguido e vigiado. Permitiu vigarices, também é verdade. Há gente que o recebia ou recebe e não precisa. Mas tudo o que se investiu num programa conhecido há uns tempos por Programa de Luta contra a Pobreza, quem presta contas disso? O que é feito dos dados? Mesmo num critério economicista não será que a luta contra a evasão fiscal daria mais lucros do que o controlo do pobre do R.S.I.? Todas as economias paralelas que não há quem não conheça, os trabalhadores por conta própria que se auto-declaram para efeitos fiscais com o ordenado mínimo, será que ninguém reparou?
Infelizmente foi preciso atirar-se com um número chocante através de uma reportagem para as pessoas se começarem interrogar
.M.L.

domingo, 21 de março de 2004

Edward Said

(prefácio a Palestina – Na Faixa de Gaza, de Joe Sacco)

Não me lembro exactamente quando li a minha primeira banda desenhada, mas lembro-me exactamente da sensação de liberdade e subversão que me provocou. Tudo no atraente livro de imagens coloridas, mas especialmente o seu formato desalinhado e aberto, o colorido extravagante das imagens, a passagem livre entre o que as personagens pensam e dizem, as criaturas e aventuras exóticas relatadas e desenhadas: tudo isso contribuiu para um enorme e maravilhoso encantamento, totalmente diferente de qualquer outra coisa que até aí eu tivesse conhecido ou experimentado.

Sábado movimentado

Ontem tive um dia particularmente cheio e diversificado. Para além das indispensáveis actividades domésticas dos sábados de manhã, passei toda a tarde na manifestação e, mal tinha chegado a casa, telefonam-me a perguntar se quero aproveitar um bilhete a mais para o Ballet da Gulbenkian o que me deu apenas tempo de trocar de sapatos e chegar lá mesmo antes de fecharem as portas do auditório.
Quanto à manif não vale a pena falar. Durante o desfile cheguei a acreditar que as pessoas chegassem para encher a praça, mas quem lá esteve viu que de facto não chegaram. O momento mais quente e emocionante foi quando uns operários a trabalhar numas obras, mesmo do alto do prédio, acenaram e mostraram uns cartazes de apoio. Não podiam estar ali naquela altura, que tinham de ganhar a vida, mas apoiaram. E também foi interessante o leque de idades: muita gente de cabelos brancos, enrugada e cansada, e muitas cadeirinhas de bebés de olhos arregalados que obviamente não sabiam onde estavam mas os seus pais, jovens, sabiam. Contudo para quem esteve nas duas, a de há um ano atrás e a de ontem, é inegável que esta foi mesmo mais fraca. Não valia a pena tanta mobilização de raiva das forças de direita.
Mas o que motivou este post foi um pormenor da minha noite. O ballet foi interessante, embora eu não aprecie muito a música contemporânea. De uma forma geral gosto muito de arte moderna excepto a música; aí sou um bocado tradicional. Mas o bailado em si foi muito bom e valeu muito a pena a deslocação. O interessante, o tal pormenor que referi acima, foi o facto de os bailarinos não virem referenciados a não ser em bloco, e por ordem alfabética. Em cada bailado, o programa dizia quem era o coreógrafo, o cenógrafo, o figurinista, etc. mas nada de bailarinos. Numa página única estavam todos os seus nomes e as fotografias.
Eu fiz uma interpretação que não sei se está correcta. Se um bailarino nos marca, então fixamos a pessoa e pela foto encontramos o nome. Digamos que é o reconhecimento do mérito. Se, por acaso, ele não nos marcou, se não somos capazes de o identificar, então nem vale a pena conhecer o nome... Será isto? Se não é, podia ser.

M.L.

sábado, 20 de março de 2004

Começou há um ano, lembram-se?

Faz hoje um ano que começou a Guerra no Iraque.
Era para ser uma guerra super rápida, com objectivos “cirúrgicos” como se dizia, que praticamente nem atingia os civis. Chamavam-lhe uma Guerra Preventiva, porque aquele país se preparava para atacar os outros com umas temíveis armas que em 20 minutos espalhariam a morte em todo o mundo. Como os inspectores que as Nações Unidas tinham nomeado tardavam a encontrar provas destas fortes convicções, o governo dos Estados Unidos, aliado ao da Grã-Bretanha e ao de Espanha, avançaram nessa guerra “defensiva”. Isto, ao arrepio da organização que representa todo o resto do mundo, a Organização das Nações Unidas.
Essa guerra começou há um ano, e como não foi declarada nenhuma paz, é porque ainda não acabou. Terminou, realmente, com o reinado do sanguinário ditador Saddam e daí com o embargo que desde a guerra do golfo tinha piorado muito a vida dos iraquianos, mas creio que, apesar de com mais liberdade de expressão, lá no Iraque ainda se vive bastante mal. Era - e é - uma terra com formas de violência terríveis, onde as minorias são gravemente oprimidas. Mas a verdade é que se as tropas americanas fizeram umas entradas de leão, não parece terem pacificado coisa nenhuma. Hoje, talvez reconheçam que teria sido mais avisado esperarem pela opinião das Nações Unidas que foram tão seriamente desautorizadas. Porque neste momento a entrada dessas forças de “capacetes azuis” é muitíssimo mais difícil, como infelizmente se viu. Os generais americanos abriram a “caixa de Pandora” e não conseguem voltar a fechá-la.
Em memória destes acontecimentos, organizam-se hoje por todo o mundo, manifestações relembrando esta triste guerra e gritando contra o terrorismo.
Como a promoção, quer a nível internacional quer nacional, tem conotações com posições de esquerda, logo as outras forças se perfilaram num contra-ataque, quase mesmo sem querer saber o que estava em causa, numa atitude de se-vem-dali-deve-ser-mau ! E tem-me chocado uma técnica, que pelos vistos resulta, de aproveitamento de uma porta aberta. Como os convites para a manif foram maioritariamente enviados por sms, começaram a circular outros sms, montados com habilidade, e convocando para a mesma manifestação mas usando palavras de ordem erradas e de um tal extremismo que afastaria a pessoa menos informada. Já tenho lido, aqui e ali, nestes blogs, comentários que dizem “Eu até pensava ir, mas francamente, dizer-se [ ....] assim não concordo!” Pronto! Fizeram uma sabotagem impecável, tiro-lhes o meu chapéu. Só que são bons sabotadores mas nem por isso ficaram com mais razão. Foi a vitória da esperteza, não da razão nem da inteligência.

M.L.

sexta-feira, 19 de março de 2004

Uma emenda

Voltei a passar por aqui e ao reler o que escrevi dois posts abaixo fiquei com muito má consciência. Mesmo muito má. Porque chamei a atenção para o aspecto “consumista” do Dia do Pai, o que continuo a achar censurável, mas fiquei-me por aí. E a verdade é que Dia do Pai ou Dia da Mãe são dias bonitos. Porque é um encadeado de relações geracionais, de grande ternura e que a todos sabe bem. Mesmo quando existem conflitos, e isso é frequente e é natural, este é um dia de tréguas.
Se ainda somos crianças é uma imagem forte, o Pai é idealizado, a pessoa que sabe tudo, que pode tudo, que podemos sempre (pelo menos em imaginação) chamar em nosso socorro – “Olha que eu digo ao meu pai!”. E nos dias de hoje, o pai em muitos casos deixou de ser aquela figura autoritária e distante que era uma referência antigamente. Para os meninos de hoje, Pai relembra sobretudo ternura, compreensão, carinho, protecção.
E depois é importante lembrar que estes Pais têm também os seus próprios pais. Mais cansados, menos fortes, menos ideais, mas por quem também se sente uma grande ternura e muito amor. Mesmo quando já desapareceram, estão sempre vivos no nosso coração, na nossa saudade, na nossa memória.
Bom Dia para todos os Pais, e parabéns por o serem
M.L.

Brincadeiras e nada mais

Através de um bloguista que já nem sei identificar porque fui passando de link em link, cheguei a um site chamado The Political Compass que entre várias coisas propunham um divertido teste (?) às nossas tendências esquerda / direita em áreas económicas e sociais.
É mesmo muito engraçado. Eu não sei fazer um link a sério, ( de qualquer modo o endereço é: http://www.digitalronin.f2s.com/politicalcompass/index.html
e assim chegam lá de certeza)
Mas o que me faz sorrir, é que nestas coisas confirma-se sempre o que já se sabe! Na grelha final a minha bolinha encarnada ficou exactamente a meio do quadrante de baixo à esquerda. Até é engraçado tão centradinha está. Mas se fosse outro resultado, está-se mesmo a ver que eu dizia logo: “Olha o disparate! Esta gente está parva, ou quê?”. Isto para se voltar sempre ao mesmo que poderemos influenciar ou convencer indecisos, mas fazer alguém convicto, mudar de opinião é tarefa quase impossível.
M.L.

Homens e Máquinas

Ultimamente tenho utilizado bastante um novo serviço que o meu Banco inaugurou em benefício dos seus clientes. É um aparelhómetro, que além das funções das antigas Caixas Multibanco, também permite depositar cheques directamente, sem se preencher nenhum papel. Muito prático. E temos de reconhecer que rápido porque evita as bichas ao balcão. Assim, cada um trata de si e pode utilizá-lo segundo as suas conveniências, mesmo quando o Banco está fechado.
Mas vinha andando pela rua e a reflectir que se isto é um benefício deste ponto de vista, também é certo que diminui os encargos do Banco com pessoal. Estas máquinas, multiplicadas por todas as agências, podem significar despedir, ou não contratar, muitas pessoas que precisam de trabalhar. E este mundo cada vez é mais impessoal e já começa a ser quase alarmante a não-necessidade de contacto humano para as mais corriqueiras acções do dia a dia.
Quando as grandes superfícies substituíram as lojas de bairro, deixámos de pedir 1 quilo de arroz ou meia dúzia de ovos ao Sr.Manel, que nos conhecia e com quem conversávamos, para nos servirmos a nós mesmos e só trocar um rápido Bom Dia com a menina da caixa, cujo nome se sabe por estar escrito na bata, menina que varia com frequência.
Com a chegada do passe social e os módulos de transporte, desapareceu a figura do "pica-bilhetes" que, para além do motorista, nos acompanhava na viagem e vendia os bilhetes ali mesmo, na hora, picando a paragem para onde se seguia. Hoje, a picagem dos bilhetes é mecânica, feita por máquina.
Já se pode dizer que são a maioria, os cinemas cujos espectadores se arrumam sozinhos. O arrumador existe para verificar se trazemos bilhete e, por vezes, se chegamos já com o filme a decorrer, dá um jeitinho com a lanterna para nos descobrir um assento vago.
Podia continuar, mas acho que já chega para se ver onde quero chegar. Não sei nada de economia portanto acredito que tudo isto terá de ser, que é progresso, rentabilização das pessoas, etc. Mas é também uma desumanização do mundo. Como não é indispensável falarmos uns com os outros, ( temos as máquinas) vemos para aí gente a falar sozinha, a responder a um locutor que está a falar na televisão ou, por fim, a recorrer a um psicólogo quando a ansiedade é muita. Se calhar há que repensar algumas coisas.
M.L.

Mais DIAS famosos

Hoje, 19 de Março, convencionou-se ser o Dia do Pai. Fica sempre de pé a ironia de se escolher para padroeiro aquele santo que de certeza NÃO era pai, era apenas marido de uma mãe. Por mim, este devia ser o dia dos Santos Maridos.
Por essas escolas e infantários do país as educadoras põem os seus meninos a fazerem prendas para dar aos pais. E, coitadas, bem se esforçam a tentar imaginar qualquer coisa de novo porque entre as capacidades de execução das criancinhas e os estereótipos do que se deve "dar a um homem", a gama possível não é nada variada. Há o desenho emoldurado, o porta chaves, o pisa-papeis, o marcador de livro, ... É claro que, como rapidamente o comércio se apoderou desta festa, depois vem a prenda comprada pela mãe, que as crianças que já não estão em infantários exigem, coisa
a sério. E eu fico parva quando folheio uma revista ou olho para uma montra e reparo nas propostas de prendas para o Dia do Pai! Numa óptica minimamente pedagógica, estes deveriam ser objectos acessíveis a uma mesada de um jovem, mesmo que esta fosse um pouco reforçada pela ajuda económica da mãe. E poucos miúdos de 10, 12, 14 anos tem mesadas para comprar colónias de 50 euros, máquinas de barbear de 85 ou berbequins de 100 euros! Eu sei que o comércio tem de funcionar e também dá emprego a muita gente, mas haja bom senso.
M.L.

quinta-feira, 18 de março de 2004

Rescaldo

No Público de hoje um artigo referindo “Psicólogos tratam psicólogos” faz-nos reflectir um pouco nas ondas de choque sucessivas que o atentado de Madrid provocou. Embora se calculasse, não imaginei números tão gigantescos. É que 5.000 pessoas atendidas e 10.000 telefonemas de gente a necessitar ajuda é mais do que podemos imaginar. Porque quando se fala em “atender” uma pessoa vítima do choque de um crime daqueles não é estar 5 minutos a ouvi-la e dar-lhe uma pancadinha nas costas. Assistir psicologicamente uma vítima, ou um familiar em desespero, ou alguém que estava lá e não pode fazer nada, é um trabalho terrível e que por melhor saúde mental que se tenha não dá para resistir muito tempo. Para essas 5 mil pessoas era quase necessário terem existido 5 mil especialistas de saúde mental! E não creio que fosse possível. Acredito que neste momento quer as vítimas propriamente ditas, quer aqueles que as assistiram e tentaram ajudar, todos devem precisar de apoio e ajuda. Há decerto cenas que nunca vão esquecer e irão marcar a sua vida futura.
E quando depois oiço certos comentários, dizendo de ânimo leve, que aqueles milhões que encheram as ruas no dia seguinte, ainda a quente a quando o choque era vivíssimo, foram depois, com o intervalo de 2 dias, votar sob a influência do medo não consigo entender a lógica do raciocínio.
Medo? Eu vejo é raiva, é desespero contra o não permitir que o povo esteja bem informado e poss decidir o que quer, contra aceitar que se decida por nós, em nosso nome, sem nos consultar. Essa é a minha visão das manifestações e do voto espanhol.

M.L.

quarta-feira, 17 de março de 2004

Cenas da Vida Actual

Não sendo uma "telemoveldependente", acho que esses aparelhos têm bastante utilidade. Ainda não me salvaram a vida, mas têm-me ajudado a sair de situações difíceis. Ainda há muito poucos dias, a caminho de uma reunião de alguma importância num subúrbio onde nunca tinha ido, só com as indicações que me vinham chegando por esse aparelhómetro consegui resolver airosamente a situação. Cheguei lá a dizer "abençoado seja quem inventou esta máquina"!
Mas isto não me impede de considerar por um lado a dependência de algumas pessoas, completamente patológica, controlando ( ou julgando que controlam) os amigos e familiares de um modo quase persecutório, falando-lhes a todo o momento e nas situações mais incríveis; por outro lado tenho de achar completamente cómico o modo como muita gente o usa, por sistema falando aos gritos.
E comecei a escrever este comentário exactamente por, ainda há minutos me ter visto, em plena rua, entre 3 pessoas desconhecidas entre si que, literalmente, berravam para o ar. Recuei mentalmente uns anos no tempo, e calculei o que pensariam os meus avós se caíssem de repente numa rua de Lisboa. Observar pessoas de aspecto normal, com uma mão junto a um ouvido, ou às vezes nem isso, e que mantêm uma conversa em voz alta com um interlocutor invisível??? Por menos do que isso foi queimada a Joana d'Arc!

M.L.

Ângulos opostos

Quando era criança havia uma frase dos adultos que me irritava solenemente. Conforme as situações diziam-me: “O quê!!? Só tens 10 anos e já queres...[ o que fosse na altura]” mas logo a seguir a propósito de outra coisa diziam-me “Quê??! Tu já tens 10 anos, tens de ....[ outra hipótese]”. Estes e , pareciam-me o cúmulo da injustiça!
Lembrei-me disso hoje que o governo faz dois anos. Pelo que estou a ouvir na rádio, dizem que se passaram dois anos e portanto ainda falta muito tempo para se pensar num futuro. Contudo, também faltam dois anos ( curioso, não é?) e já por aí não faltam candidatos à presidência da república como de Jorge Sampaio estivesse de malas feitas. Calminha...
M.L.

Climas...

Para quem nasceu num país de sol como o nosso, o bom tempo é não só natural como uma condição obrigatória. Quando há muitos dias de mau tempo, falta de sol, neblinas, ficamos zangados com o tempo, como se ele "se portasse mal", não fizesse o seu trabalho bem feito. E depois com esta hiper-sensibilidade, muitos de nós (é certo que falo por mim, mas sei que não sou caso único) sintonizamo-nos com o tempo. Em dias luminosos também brilhamos, se o tempo está sombrio, sombrios ficamos.
Vivi uns anos numa terra onde o céu só estava azul uns dois meses no ano e estive mesmo muito difícil de aturar! Por outro lado, entende-se porque é que o brasileiro tem um modo de encarar a vida com um humor que não tem nada a ver com o nosso. Pudera, com sol todo o ano e um clima muito mais regular.
Nos países tropicais sinto um pouco que aquela calor e humidade nos fazem como que regressar ao ventre materno – deve ser por isso que esses povos são menos enérgicos. Mas cá estou a generalizar que é defeito que detesto. Porque isto dos povos terem uma identidade única só serve para simplificar os pensamentos. E então terras como o Brasil ( e em certa medida os Estados Unidos) que são feitos de uma misturada de gente de variadas raças e origens. E é por isso que reajo muitas vezes quando vejo falar de um povo por aquilo que fazem os seus dirigentes. O que faz a Administração Americana é uma coisa, os americanos são os americanos. Até porque os governos vão mudando, como se viu aqui ao lado, mas o povo é sempre o mesmo.
M.L.

terça-feira, 16 de março de 2004

Histórias de Mães

Isto de mães é cá uma raça especial!
Tenham os filhos que idade tiverem são vistos como uns pintainhos a sair do ovo. E é cómico porque em relação aos nossos próprios pais não temos a mesma crítica. Sabemos lindamente criticar se a nossa mãe nos dá uns conselhos como se ainda fôssemos adolescentes. Mas os “nossos” são sempre meninos...
Esta introdução é por causa de uma história que aconteceu a uma colega de trabalho.
O filho foi ao dentista e quando chegou a casa sangrava um bocado da gengiva. Ela conta que viu logo ali uma hemorragia mortal. Não está de modas. Pega-se ao 112 até contar a sua história ao serviço de urgência. Lá vai explicando e do lado do fio vão-lhe dando alguns conselhos e desdramatizando a questão. Às tantas perguntam-lhe:
- E que idade tem o menino?
- Tem 29 anos.
- OH, MINHA SENHORA!!!!!!!! E então ele não soube perguntar ao médico o que devia fazer numa situação dessas? Não lhe pode passar o telefone, faz favor !??
Creio que a “consulta” ficou por ali. O pobre do rapaz nem sabia que atestado de imaturidade a mãe lhe estava a passar sem ele saber de nada.
Mães...
M.L.

segunda-feira, 15 de março de 2004

Sempre!


Só não percebo essa lógica aritmética que dá como resultado "Foi expontânea porque não foi preparada com antecedência, tão simples como isso. E escrever um cartaz leva 10 minutos. E porque não foi convocada por nenhum partido." Talvez se possa dizer isto se lá se tiver estado. É o caso? Para mim, que sou um cínico, as manifestações espontâneas são como os improvisos no jazz: muito bem estudados.
Mas quanto à democracia, sempre!
AP

Viva A Espanha! Viva a Democracia!

Esta foi uma semana de grande emotividade política. Desde o momento em que deflagraram as bombas em Madrid até às declarações finais dos líders partidários de Espanha a emoção era palpável e cada um dizia, pensava, desejava, desde as coisas mais sensatas aos maiores disparates. Claro que é lógico que cada um “puxe a brasa á sua sardinha” e tente interpretar os factos segundo uma visão que veja justificar as suas convicções. Já me irrita que se diga que os adversários afirmaram coisas que nem lhes passou pela cabeça. Porque há coisas que são, parece-me, incontornáveis.
Os actos terroristas são sempre uma chantagem política. Nunca podem ser aceitáveis. Tal como os reféns, numa linha mais soft mas também altamente condenável. Misturar gente anónima e inocente com desígnios políticos, mesmo que concordemos com eles, não é aceitável. Quando esses actos atingem uma escala como estes, mais visíveis, dos 11 de Setembro ou Março deixam todo o mundo sensível horrorizado. É certo que nas guerras morrem milhares de pessoas anónimas e inocentes – por isso odeio as guerras – mas há a “desculpa” de se estar em guerra e as leis da guerra serem essas. Não me posso contudo esquecer Hiroshima, num momento em que a guerra estava já, praticamente, ganha e onde morreu mais gente do que nos “11s” - Setembro + Março...
Depois achei curioso que se questionasse se estes ataques tinham motivos políticos. Então o que haviam de ter? E para se poder combater o que os motiva tem de se entender os motivos. Ou então caímos nós noutro fundamentalismo : é o Mal absoluto, como o Diabo. Não, quando há acto humano é porque há motivo político por pior e inaceitável que ele seja.
Quanto ao governo Espanhol é uma espécie de fábula: quem tudo quer tudo perde. O PP tinha tudo na mão, tinha conseguido vencer o crise do Prestige, tinha vencido o desagrado pela intervenção no Iraque, as últimas sondagens davam-lhe a maioria e quis aproveitar as últimas gotinhas para ver se chegava à maioria absoluta. O pior é que as gotinhas eram gotinhas de sangue e o tiro saiu pela culatra. A Espanha somou 2 + 2 e achou que algo estava mal. Mostrou-o
Por último uma nota quanto à manifestação de Sábado à porta do PP. Tenho lido, aqui nos blogs, comentários a essa manifestação com aspas no que se refere a expontânea. Não percebo. Mas o que é que acham que é uma manifestação expontânea??? Certo dia, pessoas que não se conhecem de lado nenhum, sentem no seu íntimo uma vontade de ir para um local e dizerem umas verdades em vós alta, pronto, lá vão! Por favor! Foi expontânea porque não foi preparada com antecedência, tão simples como isso. E escrever um cartaz leva 10 minutos. E porque não foi convocada por nenhum partido. Tudo isso define a espontaneidade. Agora que as pessoas falaram umas com as outras e se chamaram por msn ou net, isso já se sabe, e não altera nada. Não vejo onde se justifique as aspas. Ou então nunca pode ser expontânea, será sempre organizada. Haja bom senso.
M.L.

sábado, 13 de março de 2004

Livros emprestados

Anda a correr na net um abaixo assinado em defesa da continuação do empréstimo público nas bibliotecas portugueses. Parece-me da maior justiça, e até me custa relacionar com os possíveis “direitos de autor”, a implementação uma medida que pretenda impedir esse empréstimo. Até porque Portugal nem sequer é dos países onde se pratique mais esse costume de utilizar em casa livros de bibliotecas. Tanto quanto me apercebo, o povo português não lê lá muito e ponto final. Lê uns jornais ou umas revistas e lá vai comprando uns livrinhos que por vezes empresta aos amigos. Mas não são os das bibliotecas públicas trazidos para casa que arruinam os editores.
Ora a propósito disto, e em jeito de comentário ao modo como alguns de nós lidamos com a “autoridade”, não resisto a contar uma história:
Há uns tempos uma amiga minha foi fazer compras a um Supermercado. Pagou, pegou nos sacos das compras e ao passar a porta, soa um apito altíssimo que faz suspender toda a gente olhando suspeitosamente para ela. Aparece de imediato um polícia que a acompanha junto da Caixa onde os sacos são revistados para ver o que teria ela furtado! Nada. Tudo o que ali estava tinha sido pago. Pede-se para despejar a carteira e o resultado é o mesmo: só objectos pessoais. Entretanto a multidão engrossa perante o vexame da minha amiga. Ora, entre as coisas que tinham saído da grande carteira que trazia, vinha um livro. E alguém, entendido na matéria, de certo, alvitra: “Não será um livro de biblioteca?” Bingo! Como ela é professora universitária tinha trazido uma obra da “sua” biblioteca e não o tinham desmagnetizado. Faz-se a experiência e de facto o livro apita. Pronto, muitas desculpas, e “faz favor de passar, minha senhora”. Que nada, diz ela. “Vá o Sr. Polícia à frente a apitar com o livro e eu vou atrás com os sacos! “ E foi assim mesmo. O polícia, coradíssimo, lá passou a apitar e ela, triunfante, foi atrás dele até sair do Supermercado.
Senti-me vingada, por interposta pessoa, de alguns vexames que nos fazem passar.
M.L.

Bebés pobres, bebés ricos

Como tem de ser, por mais vasta que seja a cultura geral de cada um, todos nós temos umas áreas de estimação onde nos sentimos melhor informados para compensar todas as outras onde o que sabemos é mesmo superficial. A minha área "de estimação" tem a ver com miudagem, educação, saúde, respostas sociais a diversas necessidades. E é por isso que me decidi a partilhar aqui uma dúvida que me tem crescido de um modo inquietante nos últimos tempos.
Como se sabe, o Ministério da Educação assume a educação desde o chamado "pré-escolar" até ao final do "ensino superior". Tarefa gigantesca e por isso também é que é um Ministério gigantesco. Mas, antes do pré-escolar, (admitindo que essa resposta está implementada, de facto, por todo o país, o que nem vale a pena dizer que é uma utopia) as crianças até aos 3 anos só podem receber uma resposta social em infantários ou creches, que são do foro da Segurança Social. Tal como os ATL são as chamadas respostas de apoio à Família. Partilham esta responsabilidade com a Segurança Social as múltiplas Misericórdias espalhadas pelo país. De sublinhar o papel da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, obviamente a maior e mais rica - é uma espécie de ministério paralelo.
Os senhores que ultimamente nos governam têm seguido uma política de alienar tudo o que podem e, muito rapidamente aquilo que, por definição, não dá lucro. É claro que as políticas sociais não são para dar lucro e, portanto, quanto menos se fizer, melhor. Isto para dizer que os infantários da Segurança Social - onde se paga segundo uma tabela de acordo com o IRS dos pais - têm listas de espera muito maiores do que as das operações nos hospitais. Na zona de Lisboa, é vulgar para 20 futuras vagas os infantários terem de 200 a 300 inscrições.
Mas o que me levou a escrever hoje aqui, é o saber que pouca gente tem consciência de um facto muito chocante. Se por um lado, se vai dando uns passos no sentido da inclusão de crianças com deficiência no ensino público, estamos a criar guetos sociais entre os bebés. Segundo as normas que os estes infantários têm de cumprir, a prioridade de admissão é para famílias com menores rendimentos. Certíssimo. Mas não é preciso muita imaginação para concluir que ao escolher 20 de 200 candidatos, os menores dos menores dos menores rendimentos é... rendimento zero. Portanto os nossos infantários vão ficar entupidos com crianças de famílias que vivam no limiar da pobreza. Exclusivamente! Exagerei ao falar em guetos?
Alguém se lembra de uns cartazes do PP onde se proclamava "Vamos criar mais lugares em creches!" ? E o Dr. Bagão é um ministro PP, não é? A verdade é que não disseram de que creches estavam a falar. Agora é que se percebe que afinal se referiam a creches privadas. Só pode ser. Excluindo da resposta pública as famílias com um pouco mais de recursos, estas têm de se encaminhar para o privado onde pagam por filho o correspondente a um salário mínimo. Portanto a mensagem do cartaz foi mal interpretada: não era aos pais que se dirigia, era aos proprietários dos infantários privados prometendo um aumento de lucros. Bate tudo certo. Eu é que fui uma parva!
M.L.