segunda-feira, 12 de abril de 2004

Continuamos em Abril




O exílio nao era apenas para activistas políticos.
A Arte também fugiu. Muitos grandes artistas não se sentiam bem em Portugal.
Vieira da Silva foi um deles. Mas aqui temos um dos seus testemunhos do que sentiu nesse dia.
Grande pintora a quem o fascismo não deu condições de trabalho.
Não vamos recomeçar, pois não?

M.L.

domingo, 11 de abril de 2004

Fim de férias...

Fim de férias...
De volta a Lisboa, depois deste período de pausa ( que alarguei deslocando alguns dias das minhas férias “grandes” para estas, pequeninas) quase nem conheço a minha cidade num final de Domingo de perfeito sossego.
Sou Lisboeta. Gosto de Lisboa. Sei perfeitamente que é uma cidade-manta-de-retalhos, onde cada Bairro tem características bem distintas e que resolvem competir entre si. Ter nascido e vivido em Campo de Ourique não tem nada a ver com ter nascido e vivido em Alvalade por exemplo, ou na Graça, ou em Alcântara, etc. Quem cai cá no burgo de pára-quedas – sem ofensa – pode não sentir nada disto, mas olhem que é mesmo verdade. Dizem-me que ninguém conhece ninguém. Quando se sai do bairro é certo, mas... Eu conheço bem a gente do meu prédio e, de vista, a da minha rua. No meu bairro sinto-me em casa. No quiosque dos jornais já sabem o que eu compro, no café trazem-me a bica cheia sem pedir.
Mas reconheço que é um inferno as obras permanentes e tudo indica que descoordenadas, o trânsito caótico, a impaciência que se apodera das pessoas todas as manhãs. E quando volto de mini-férias já venho preparada para a dança da procura de estacionamento, para um mergulho no barulho e confusão.
Mas hoje, devo dizer aleluia ! de acordo com a quadra. Deve ter saído muita gente para longe, é o que imagino, que a cidade está irreconhecível. Quase nem espero nos semáforos, não se ouve barulho, e até tenho lugar para estacionar mesmo em frente de casa. Parece magia.
E ainda por cima um entardecer lindíssimo, com uma luz suave e doce, para me aconchegar melhor neste regresso.
Vamos ver como me sinto amanhã de volta ao trabalho...

M.L.

A Revolução que ficou conhecida por nome de flor





Nasceu como um Golpe Militar.
Mas quando o povo encheu as ruas e choveram flores
transformou-se numa Revolução.
Podemos ter orgulho em ter conseguido que das armas não saíssem balas e mesmo assim o país se transformasse.
Foi em Abril.
Foi há 30 anos.
M.L.

sábado, 10 de abril de 2004

Custa a acreditar

Não comprei o Expresso (sou um bocado irregular nestas compras...) e portanto só através deste post do Grão de Areia tive conhecimento desta ideia sinistra.
Julgava eu que já poucas coisas me podiam espantar. Burra! Sou de facto completamente idiota. Se tivesse sido no 1º de Abril ainda pensaria numa brincadeira... de muito mau gosto. Afinal parece que é a sério.
Da parte de alguns outros jornais, esta iniciativa chocava-me na mesma, mas não estranhava. Viesse do Independente, para não falar no Diabo, e seria MAIS UMA. Mas da parte do Expresso, que tem derrapado muito, mas ainda considerava um jornal com qualidade deixa-me seriamente impressionada.
É mau gosto, é jogar com ideias-feitas e profundamente reaccionárias. Alguns comentários no Barnabé em relação a certos cartazes que têm sido postados, irritam-me um pouco, mas a verdade é que as caixas de comentários são abertas e livres. É natural que apareçam perspectivas de direita ou mesmo claramente reaccionárias. Tenho-me refreado para não ir respondendo a algumas declarações idiotas e fora do contexto histórico.
Mas o Expresso tinha obrigações. Julgava eu. Este jogo sujo, esta manipulação grosseira e mentirosa, ultrapassa tudo o que eu concedia na minha tolerância.
O. K. Está decidido. Vou passar a poupar mais uns euros que me dão jeito para uma pequena ajuda ao desenfreado aumento do custo de vida.
Pois é. Afinal há males que vêm por bem.
M.L.

A nossa saúde está mesmo, mesmo, doente!

Já começa a ser costume ouvirmos e lermos notícias sobre o estado em que estão os nossos hospitais, por um lado do ponto de vista material – falta de equipamentos, enfermarias em mau estado e superlotadas - e por outro do ponto de vista humano - falta de especialistas, muitos técnicos a terem de fazer horas extraordinárias, e em muitos sítios ausência mesmo de técnicos, tendo os doentes de se deslocar a muitos quilómetros de distância, para serem atendidos.
Ultimamente para além destas notícias, chegam-nos de vários pontos do país, descrições de epidemias, por exemplo, no Instituto Ricardo Jorge, em Portalegre, em Pombal, onde os próprios técnicos de saúde são contaminados com vírus cuja origem nunca fica lá muito bem explicada.

A última das notícias preocupantes tem a ver com a morte de doentes que ao serem anestesiados para pequenas cirurgias, tiveram uma anestesia mortal. Houve um caso em Beja e dois em Faro. Para o público as explicações têm sido pouco claras. Entretanto foram suspensos médicos em Faro e a Ordem interveio, a explicar que existe uma droga, chamada Procofol, que a Infarmed só tinha alertado parcialmente para os seus perigos, portanto a culpa não era dos médicos e sim da falta de informação.
Até aqui, apenas há a registar entre nós grande preocupação, mas sem particular escândalo. O que me deixou claramente chocada foi a resposta dada pela directora do Hospital de Beja. Inquirida por um repórter sobre o óbito no seu hospital, a senhora teve o descaramento de responder que como não estava provado que fosse essa droga a causadora da morte, até ter essa certeza continuaria a utiliza-la.
Repare-se que ela não respondeu que “não havia alternativa, e portanto até surgir uma outra hipótese continuavam a arriscar porque as cirurgias tinham de se fazer”... Seria uma resposta possível, e aceitável. Não. Disse claramente que até estar provada que a substância era nociva continuaria a ser utilizada!!! Ora o raciocínio teria de ser inteiramente inverso. Até ter a certeza de que não era nociva, teria de suspender a sua aplicação. O que está em risco são vidas humanas. E ficamos à espera até ter a certeza se causa ou não a morte?! Ouve-se e não se acredita!
M.L.

Em defesa da memória




A memória também pode ser uma arma. E boa.
Mas não a deixemos enferrujar !

M.L.

sexta-feira, 9 de abril de 2004

Santuários, afinal só na idade média.

Não, acho que não tem a ver com perspectivas de direita ou de esquerda. É apenas puro bom senso. Se há refúgio sagrado por excelência, são os templos religiosos. E posso falar disto com serenidade porque, como já tenho dito, estou distante do fenómeno religioso. Mas ainda há poucos dias nos lembrámos do horror dos massacres no Uganda, e um dos pontos chocantes foi o ataque a uma igreja, onde as pessoas se imaginavam relativamente a salvo. Agora as tropas aliadas têm a ideia peregrina de ir ao Iraque bombardear uma mesquita! Está tudo louco. Será que querem mesmo dar o aval aos fundamentalistas e transformar esta luta numa guerra religiosa, uma jihad??? É que era mesmo só o que faltava. Por todo o mundo, os templos religiosos são santuários, os militares deviam aprender isso lá na escola do exército. Ou então é mesmo de propósito, deitar-se petróleo no lume.
Ai, mas de onde me surgiu esta imagem?
M.L.

"Paixão"? Não, obrigada.

De um modo geral quando um livro, um filme, um espectáculo qualquer levanta polémica, gosto de ir lá meter o nariz para poder dar opinião com algum fundamento. Digo “de um modo geral”. Acontece às vezes não ter tempo, não ter dinheiro, distrair-me e deixar passar a oportunidade. Mas desta vez, não tive foi mesmo o menor interesse. Estou a falar da Paixão do Mel Gibson, ou de Cristo (parece-me que é de um pelo outro, mas tenho dúvidas como será mais correcto dizer).
Quando digo o não ter o menor interesse é mesmo isso, tal e qual.
*Primeiro, não aprecio particularmente filmes de tipo religioso – deve ter a ver com o meu ateísmo ou agnosticismo, não sei bem como lhe chamar. Misticismo não é comigo. O mais perto que estou é uma olhadela aos horóscopos e mesmo aí troco os signos todos...
*Segundo, gosto de alguns filmes históricos, e seria nessa condição que o poderia ir ver, mas quando o mesmo tema é tratado várias vezes perde a graça. E este tema todas as Páscoas temos as mais variadas versões nas nossas TVs. Demais é demais.
*Terceiro, o triller não é nada o meu género de estimação e pelo que ouvi isto encaixa exactamente em tal categoria. E nem sequer pode ser um bom triller porque já se sabe como acaba, e sem suspence qual é o interesse?
Não, obrigada. Ver um ser humano a ser torturado realisticamente, chicoteado durante ¼ de hora, o sangue a jorrar, enorme sofrimento físico, ...dispenso.
Será uma das vezes onde não vou ter opinião fundamentada; enfim, ninguém é perfeito.
M.L.


Em que mãos?



Abril começou em boas mãos. Agora por onde anda?
Quero acreditar que ainda está nas nossas mãos construir o nosso futuro.

M.L.
Ouguela com vida!...
Escola de Ouguela - Campo Maior - Portugal

www.eb1-oguela.rcts.pt info@eb1-ouguela.rcts.pt www.ouguela.blogspot.com


Congresso Alentejo XXI
Semeando novos rumos ...


Todo o Alentejo esteve representado em Montemor-o-Novo no congresso de todos os alentejanos...
Que lindo que é assistir à manifestação do sentir alentejano!...
Ouguela esteve presente e transmitiu um testemunho do trabalho conjunto desenvolvido entre a escola e a comunidade.
Ouvimos muito sobre os sonhos e os anseios do povo alentejano...
Ouvimos que a educação não poderá ser encarada como uma questão económica, mas sim como um direito de cidadania...
Ouvimos que o esquecimento a que alguns autarcas condenam as suas populações é criminoso....

De Ouguela vieram o Sr. António Gadanha e o Ricardo Encarnação...
...que transmitiram um testemunho pessoal do trabalho desenvolvido em conjunto pela escola e pelo Centro Comunitário.
O resumo previamente apresentado ao congresso não faz justiça ao encanto daquilo que foi a sua intervenção, mas aqui fica...

www.eb1-oguela.rcts.pt info@eb1-ouguela.rcts.pt www.ouguela.blogspot.com




Ouguela Com Vida


“Entre O Caia, o Xévora e o Abrilongo há um mundo de magia, entre o sonho e a realidade. Há um ambiente e uma comunidade com vida, que merecem ser estudados e protegidos”.
Ouguela é uma aldeia rural do Concelho de Campo Maior. Aqui, entre o Caia, o Xévora e o Abrilongo desde sempre que as populações viveram em comunhão com a natureza, cultivando a terra, pescando nas águas límpidas dos rios e vivendo em equilíbrio com a natureza.
Aqui ainda vivem a Abetarda, o Sisão e o Grou. Aqui as Bogas e os Barbos ainda sobem o rio para desovarem e para se alimentarem. Aqui o vimieiro e o salgueiro ainda dão a matéria prima com que os mais velhos nos ensinam a construir galritos, cestos e todo o tipo de artesanato.
Aqui lembram-se as técnicas tradicionais de trabalhar a terra, “de dar e tirar” dela a subsistência de todo um povo. Lembram-se também as “Estórias”, as alegrias e tristezas e os saberes ancestrais que compõem a memória cultural de um povo.
Aqui, com o apoio de organizações ambientais como o GEDA de Campo Maior, procurámos criar espaços vivos para o convívio com a natureza e a educação ambiental.
Aqui, em Ouguela, procurámos estudar as artes e os saberes ancestrais, fazendo deles o ponto de partida para os ensinamentos escolares. Desta forma, os alunos tornaram-se em construtores da sua própria aprendizagem e tomaram atitudes intervenientes na defesa da sua herança cultural e ambiental.
Juntos, estudámos a fauna e a flora locais, procurando contribuir para a preservação das espécies em vias de extinção; procedemos à colocação de ninhos e ao estudo das espécies existentes em redor da aldeia; promovemos a recolha, reutilização, e reciclagem do papel e de outros produtos; a redução da produção de resíduos provenientes do consumo das sociedades modernas; a necessidade de poupança de energia e de utilização de energias renováveis.
Em Ouguela desenvolvemos actividades de educação ambiental e de intervenção comunitária que congregaram a escola e a comunidade, em particular os idosos, que participaram na construção da horta pedagógica, recuperando os saberes tradicionais e tornando-os parte integrante da formação cívica e cultural das novas gerações.
Com estas actividades procurámos, de igual modo, permitir a criação de espaços de troca, partilha e aprendizagem entre a escola e a comunidade, contribuindo para a criação de uma escola inclusiva e reforçando os laços e a identificação entre ambas as instituições.
De igual modo procurámos partilhar estas actividades com os nossos parceiros europeus da Grécia, Alemanha, Roménia, Suécia, Itália e Espanha, com os quais desenvolvemos o projecto “De mãos dadas por uma escola melhor” que pretende reforçar os laços entre as diversas instituições vivas da comunidade.
A Internet e a intercomunicação permitiram transmitir para além do horizonte aquilo que é a razão de ser desta comunidade, trazendo de volta mensagens de esperança que criaram uma verdadeira espiral de solidariedade para com o desejo deste povo de ver valorizada a sua cultura.
Em cada dia, em Ouguela, os alunos trabalham conscientes de que a sua riqueza cultural é valorizada pelos seus colegas de escolas distantes e sabendo que o seu trabalho de pesquisa, recolha e reconstituição das tradições é valorizada por todos os que estão ligado à educação.
A Internet ensinou assim os alunos a aprender com os pais e com os avós, pois são esses os conteúdos que mais receptividade apresentam junto dos colegas com quem comunicam. Por outro lado, aprendendo com os seus familiares, os alunos aprenderam que podem ser eles mesmos “aprendizes de Pigmaleão”, transmitindo preciosos conhecimentos sobre a sua cultura não só aos seus colegas alunos mas, igualmente, aos professores que carinhosamente os incentivam a continuar no seu trabalho.
Desta forma, a Internet e todos os que através dela se juntaram aos 89 professores de Ouguela, deixaram um pouco de si no processo de aprendizagem e crescimento dos alunos. Cada um dos correspondentes tornou-se assim num actor privilegiado da afirmação de uma comunidade e contribuiu de forma decisiva para o crescimento destes alunos como elementos activos, críticos, participativos e conscientes da sua riqueza cultural, ambiental, histórica e paisagística. Riqueza essa que assim se afirmará como meio privilegiado para para a formação das futuras gerações de Ouguelenses.

Viva Ouguela!...
Viva o Alentejo!....
Viva Portugal!...

António Gadanha, Ricardo Encarnação e António Mendes
Escola e comunidade de Ouguela


Aos amigos do Cão de Guarda:

Parabéns pela democratização deste espaço!...

Isto é o verdadeiro "Empowerment"

Vocês São os maiores...

quinta-feira, 8 de abril de 2004

Ele há cada vício...

Aqui há uns dias li no "meu" BdE um post do Luís Rainha a que achei graça por me ter identificado muitíssimo com a situação. Sendo nova nestas andanças de net, blogs, posts, liks, - o que para aqui vai de termos exóticos ! – esta mania deu-me forte. Se passo um dia sem aqui vir, sinto falta, imagine-se. E tendo conseguido uns dias de férias longe de Lisboa, vim de portátil e tudo, ainda assim perdesse qualquer coisa. E, se em Lisboa tenho a netcabo que não me trás surpresas, perdida numa aldeia tenho de recorrer a outro servidor e ia-me passando quando ao chegar vi que o telefone não estava operacional! Quando a irritação passou, deu-me um ataque de riso daqueles que parece não acabarem. Só visto! Que ridículo incrível esta autêntica dependência...
Quando durante a minha adolescência mantive um diário (e ainda foi ao longo de uns 5 ou 6 anos) não sentia a mesma necessidade compulsiva de escrever. Também é certo que aqueles cadernos só eram lidos por mim própria e aqui tenho sempre a ideia de que alguém dará uma espreitadela – e fico toda orgulhosa quando há um comentário a comprová-lo.
Mas esta “adolescência” blogística também vai com certeza ser ultrapassada, e eu vou conseguir atingir a maturidade serena de quem olimpicamente faz aqui uma visita quando tem algo de verdadeiramente sério e importante a dizer. Ups! Nesse caso fechava já a porta. Algo de sério? Estou parva, ou quê?
M.L.

Também acho


Encontrei neste blog um texto muito bom, mas como não consegui o endereço certo para o linkar vou reproduzi-lo todo com a "devida vénia" ao autor

Uma percentagem significativa dos portugueses ou nasceram ou foram educados depois do 25 de Abril, e muitos deles encaram aquela data como mais uma data histórica; como sucede com todas as datas históricas, não é raro que encontremos mesmo alguma ignorância.
Pessoalmente considero o 25 de Abril uma data histórica, e que como tal deve ser considerada. Para quem teve que se confrontar com o regime anterior e com todas as suas consequências é, muito provavelmente, a data política mais importante das suas vidas; foi a liberdade, o fim de uma guerra para onde se era mandado sem o direito de a questionar, foi a aquisição de novos valores políticos e civilizacionais, foi um país embriagado pela própria liberdade.
É uma data tão importante que sentimos alguma dor quando um jovem revela pouco conhecimento ou mesmo algum desprezo pela mesma.
Ao contrário do que muitos pensam considero que isso não tem nada de grave, sendo mesmo uma inevitabilidade. Nós, os que com mais ou menos idade já vamos tendo o estatuto de cotas, conhecemos a diferença; os mais jovens ainda bem que não a conhecem.
Mas, mais importante do que conseguirem fazer uma linda redacção sobre o 25 de Abril é que encarem o autoritarismo como um absurdo, e que assumam o direito à indignação como um acto natural da nossa sociedade; e nesse aspecto, sem terem vivido o 25 de Abril e mesmo sem lhe darem a devida importância, são portadores dos seus valores, são os verdadeiros protagonistas da profunda mudança civilizacional que Portugal sofreu graças ao 25 de Abril.
Que se indignem perante o abuso, que se revoltem contra a injustiça, que digam o que a cada momento o que lhes vai na alma, que digam não à subserviência e ao despotismo e, mesmo sem o saber, estarão a interpretar melhor os valores do 25 de Abril do que as gerações que o protagonizaram e que, não rara vezes, são portadores de hábitos e princípios inquinados por um passado de ditadura.

O único acrescento é que eu chamaria Fascismo ao fascismo e não eufemísticamente "regime anterior", mas é apenas um pormenor. O nosso fascismo teve características próprias, mas os valores que o caracterizavam estavam lá...

M.L.

Quando as paredes começaram a falar




A palavra tanto tempo presa, soltou-se enfim.
O desejo de falar era tanto que até os muros falavam.
Nem sempre o talento de quem fazia estes murais era do tamanho do seu entusiasmo. Fizeram-se alguns lindos, de outros só ficava a boa vontade.
Mas essa, ninguém a pode negar.

M.L.

quarta-feira, 7 de abril de 2004

O que o tempo faz...

Há um ano, as forças que invadiram o Iraque, diziam-se forças de “Libertação” e, a acreditar-se no que aparecia escrito em certa imprensa, parecia que Bush julgava de facto que seria recebido com flores e palmas. Passado um ano, vemos aparecerem outros termos. Hoje já ouvi falar em Forças de Ocupação ( não é bem uma libertação...), ouvi falar em “Resistência”, fala-se numa unidade conjuntural de sunitas e xiitas. E nada disto dito em imprensa de esquerda.
O tempo é um grande mestre!

M.L.

Código e Educação

Hoje foi o Dia Mundial da Saúde, e parece que foi escolhido como tema as mortes na estrada e os problemas inerentes à Prevenção Rodoviária. Tirando o facto de me parecer um pouco estranha esta escolha, não me parece exactamente um “problema de saúde”, não tenho dúvidas em considerar o tema importantíssimo.
(O que diz respeito à saúde foca-se na eficiência com que as vítimas dos acidentes são atendidas, e isso parece-me uma questão de organização e eficiência de meios – helicópteros, por exemplo, que ainda é um meio raro de recolha de feridos.)
Mas vi discutida na imprensa e sobretudo rádio e TV, com muita insistência, o conhecimento do código nas Cartas de Condução. Com toda a franqueza, não acredito que os acidentes aconteçam por desconhecimento do Código! Admito que, por vezes, acontecem por não se cumprirem as regras, mas não por não as conhecer... É, como muita coisa em Portugal, as leis existem e são boas, só que não se cumprem. E quanto ao código, até acho o exame extremamente exigente e cheio de picuinhas. O que faz muita falta para uma boa prevenção é educação.
É vulgar um condutor conduzir como se a estrada fosse apenas sua e os outros fossem uns importunos, uns “penetras” que estão ilegalmente na sua propriedade. E são esses condutores arrogantes que, por nem pensarem na existência dos outros, muitas vezes provocam acidentes completamente evitáveis. Assim como a condução sob o efeito do álcool. Claro que pode haver excepções, mas o costume de países onde até se bebe muito ao fim de semana, mas sorteiam um elemento do grupo para ficar com a chave do carro – e esse só bebe sumo, parece-me de apoiar. Porque se perguntarmos à pessoa que está a soprar no balão, se está mesmo O. K., ela dirá que sim. É preciso estar mesmo muito alcoolizado para achar que não tem os reflexos impecáveis. E depois é o que se vê.
Não, isto é uma questão de mentalidade e educação e não tem nada a ver com conhecimento das Leis do Código.

M.L.

O espírito de Abril não pode envelhecer



Era criança neste dia.
Hoje é um adulto.
Tenho de acreditar, quero acreditar, que quem desenhou estas pessoas, este tanque, estas flores, hoje tenha a noção daquilo que ganhou nesse dia. Não pode estar um adulto amolecido e conformado. Quem viveu isto, não o esquece.
M.L.

terça-feira, 6 de abril de 2004

Acerca das papoilas

Vi hoje as primeiras papoilas do ano.
É sabido que o “símbolo” da Primavera costumam ser as andorinhas. Entre nós, é o animal migratório por excelência e quando partem ou chegam as andorinhas é sempre sinal de mudança de estação. É bonito o espectáculo, muito elegantes, em bandos, as andorinhas e a Primavera fazem um lindo par. Mas para mim, o que me faz sentir mesmo no íntimo que vem aí a luz, o sol, os dias grandes, é quando começo a ver papoilas. Sinto uma alegria interior quase sem motivo, para mim é a primavera.
É uma flor muito especial. Completamente selvagem, não há papoilas de estufa, não se compram em floristas. Podia ser um dos motivos de eu gostar tanto, esse toque de rebeldia, de ser mesmo flor do campo.
(É certo que falo disto em Portugal, onde se costuma ver num campo todo verde, entre margaridas, malmequeres, ou outras florinhas silvestres, uma ou outra mancha vermelha. Há países onde se cultivam campos de papoilas com outras intenções que não estéticas, como sabemos.)
Mas não é apenas esse aspecto “selvagem” e popular que me agrada na papoila. Gosto pela sua fragilidade. Gosto pela sua leveza. Por ser uma flor de existência breve. Não há ramos de papoilas envoltos em papel e com laçarote. Não se vêem numa jarra de um dia para outro. E é vermelha. Não há dúvidas quanto a isso, não as conheço de outra cor. Se a flor de Abril não fosse o cravo poderia ser a papoila.

M.L.

Silêncios

Acabo de ver, agora mesmo, no Barnabé
este cartaz e impressionou-me mais do que qualquer dos outros que eles têm publicado. Já aqui gabei e magnífica ideia que eles tiveram em reconstituir os cartazes da época. Na altura tinha dito que também tinha tido a mesma ideia, de publicar todos os dias algo alusivo ao 25 de Abril, e de facto assim tenho feito. Mas a minha homenagem é um pouco á minha dimensão. Tenho publicado o que vou encontrando e que faz sentido para mim. O Barnabé, com a explêndida colecção de cartazes de época, tem feito reviver aos mais antigos emoções várias, da comoção, à irritação, à ironia, ao enternecimento.
Este de hoje não é o famoso cartaz da Maioria Silênciosa que desencadeou o 28 de Setembro e sim o que o combateu. Mas o "boneco" está lá, e ainda arrepia. E até a designação provocatória e insultuosa de "silenciosa" quando se algo se tinha conquistado era exactamente o direito á palavra, já dava logo vontade de discutir. O curioso é que essa atitude se mantem muito. Encontramos ainda muito por aí, gente que se vitimiza conscientemente dizendo que "nem diz nada" insinuando com isso que tem muito que dizer mas não pode... É uma atitude que me irrita bastante. Essas pessoas poderão dizer que não encontram palavras, ou não têm o dom de saber falar, ou por pessimismo acham que ninguém os vai ouvir. Agora escolher o silêncio como opção, e chutar a responsabilidade para os outros parece-me...Não queria ser agressiva e risquei a palavra que me ocorreu. Como vou dizer? ...um receio injustificado! Quem lhes faria mal se se queixassem?
E a tal Maioria Silenciosa, foi o que se viu... Silêncio podia existir, mas maioria???
M.L.

Para Memória





FOI ESPERANÇA, ALEGRIA, O FIM DE UM MUNDO SOMBRIO E O NASCER DE TODAS AS MANHÃS



M.L.

segunda-feira, 5 de abril de 2004

Saudosismos

Houve um filme aí dos anos 50 ou 60, de René Clair, que em português teve o título de "O Vagabundo dos Sonhos" mas creio que em francês se chamava "Les belles de nuit" que, não sendo nada de muito especial, abordava um tema interessante. Bastante optimista, como de uma forma geral os deste realizador, tipo Kapra à francesa, era protagonizado por um actor que morreu muito novo, Gérard Philipe. Este encarnava um jovem músico em males de amor e de dinheiro que durante a noite ia sonhando com o mundo, em épocas sucessivamente mais remotas. Esses sonhos iam-se justificavando porque no momento em que decorria a história existia um velhote, rabugento, que implicando com tudo o que se passava na actualidade, repetia como um refrão: "Ah, no meu tempo...No meu tempo é que era!" e concluía-se que "no tempo dele" a vida era bastante cor-de-rosa.
O dito músico-sonhador na noite seguinte, procurava esse el-dorado que era a tal época do velhote, e no seu sonho onde as personagens viviam com outras roupagens e outros hábitos mas mais ou menos os mesmos problemas, aparecia de novo o mesmo velhote integrado nessa outra era, com a lenga-lenda de que “no meu tempo é que era”. Já se está a ver que tudo ia regredindo de noite para noite, renascença, idade média, antiguidade, acabando ( ? ) na pré-história com o velho a fugir de um mamute e a gritar que “no meu tempo é que era”.
A moralidade da história era de que todas as épocas se equivalem e a nossa nem era assim tão má como isso. Lembro-me de vez em quando desse filme, perante certos “esquecimentos” das pessoas. É claro que, para quem tem hoje 30 anos ou menos, o 25 de Abril é História. E faz parte da natureza humana ser um pouco como o velhote e acreditar que hoje é mau portanto dantes deveria ser melhor. E, infelizmente, a mensagem que muitas vezes passa é que o que não havia antes do 25 era apenas liberdade de opinião, mas o resto nem era assim tão mau como isso...
Ora era muito bom, que enquanto ainda estão vivos e com memória, os que viveram nos anos 60, 50, 40, testemunhassem o que era o dia a dia desse tempo. Que dissessem que, embora a liberdade de opinião fosse a parte do iceberg que se via e portanto era óbvia e inegável, a falta de liberdade era um cancro que roía toda a sociedade com as consequências mais devastadoras. Era a cultura, a ciência, a economia, o dia a dia mais comezinho e aparentemente inocente que era afectado. Por favor expliquem aos jovens a quem já oiço dizer que também não era tão mau como isso...
Pois era sim. Era pior do que isso.
M.L.