domingo, 11 de abril de 2004

Fim de férias...

Fim de férias...
De volta a Lisboa, depois deste período de pausa ( que alarguei deslocando alguns dias das minhas férias “grandes” para estas, pequeninas) quase nem conheço a minha cidade num final de Domingo de perfeito sossego.
Sou Lisboeta. Gosto de Lisboa. Sei perfeitamente que é uma cidade-manta-de-retalhos, onde cada Bairro tem características bem distintas e que resolvem competir entre si. Ter nascido e vivido em Campo de Ourique não tem nada a ver com ter nascido e vivido em Alvalade por exemplo, ou na Graça, ou em Alcântara, etc. Quem cai cá no burgo de pára-quedas – sem ofensa – pode não sentir nada disto, mas olhem que é mesmo verdade. Dizem-me que ninguém conhece ninguém. Quando se sai do bairro é certo, mas... Eu conheço bem a gente do meu prédio e, de vista, a da minha rua. No meu bairro sinto-me em casa. No quiosque dos jornais já sabem o que eu compro, no café trazem-me a bica cheia sem pedir.
Mas reconheço que é um inferno as obras permanentes e tudo indica que descoordenadas, o trânsito caótico, a impaciência que se apodera das pessoas todas as manhãs. E quando volto de mini-férias já venho preparada para a dança da procura de estacionamento, para um mergulho no barulho e confusão.
Mas hoje, devo dizer aleluia ! de acordo com a quadra. Deve ter saído muita gente para longe, é o que imagino, que a cidade está irreconhecível. Quase nem espero nos semáforos, não se ouve barulho, e até tenho lugar para estacionar mesmo em frente de casa. Parece magia.
E ainda por cima um entardecer lindíssimo, com uma luz suave e doce, para me aconchegar melhor neste regresso.
Vamos ver como me sinto amanhã de volta ao trabalho...

M.L.

A Revolução que ficou conhecida por nome de flor





Nasceu como um Golpe Militar.
Mas quando o povo encheu as ruas e choveram flores
transformou-se numa Revolução.
Podemos ter orgulho em ter conseguido que das armas não saíssem balas e mesmo assim o país se transformasse.
Foi em Abril.
Foi há 30 anos.
M.L.

sábado, 10 de abril de 2004

Custa a acreditar

Não comprei o Expresso (sou um bocado irregular nestas compras...) e portanto só através deste post do Grão de Areia tive conhecimento desta ideia sinistra.
Julgava eu que já poucas coisas me podiam espantar. Burra! Sou de facto completamente idiota. Se tivesse sido no 1º de Abril ainda pensaria numa brincadeira... de muito mau gosto. Afinal parece que é a sério.
Da parte de alguns outros jornais, esta iniciativa chocava-me na mesma, mas não estranhava. Viesse do Independente, para não falar no Diabo, e seria MAIS UMA. Mas da parte do Expresso, que tem derrapado muito, mas ainda considerava um jornal com qualidade deixa-me seriamente impressionada.
É mau gosto, é jogar com ideias-feitas e profundamente reaccionárias. Alguns comentários no Barnabé em relação a certos cartazes que têm sido postados, irritam-me um pouco, mas a verdade é que as caixas de comentários são abertas e livres. É natural que apareçam perspectivas de direita ou mesmo claramente reaccionárias. Tenho-me refreado para não ir respondendo a algumas declarações idiotas e fora do contexto histórico.
Mas o Expresso tinha obrigações. Julgava eu. Este jogo sujo, esta manipulação grosseira e mentirosa, ultrapassa tudo o que eu concedia na minha tolerância.
O. K. Está decidido. Vou passar a poupar mais uns euros que me dão jeito para uma pequena ajuda ao desenfreado aumento do custo de vida.
Pois é. Afinal há males que vêm por bem.
M.L.

A nossa saúde está mesmo, mesmo, doente!

Já começa a ser costume ouvirmos e lermos notícias sobre o estado em que estão os nossos hospitais, por um lado do ponto de vista material – falta de equipamentos, enfermarias em mau estado e superlotadas - e por outro do ponto de vista humano - falta de especialistas, muitos técnicos a terem de fazer horas extraordinárias, e em muitos sítios ausência mesmo de técnicos, tendo os doentes de se deslocar a muitos quilómetros de distância, para serem atendidos.
Ultimamente para além destas notícias, chegam-nos de vários pontos do país, descrições de epidemias, por exemplo, no Instituto Ricardo Jorge, em Portalegre, em Pombal, onde os próprios técnicos de saúde são contaminados com vírus cuja origem nunca fica lá muito bem explicada.

A última das notícias preocupantes tem a ver com a morte de doentes que ao serem anestesiados para pequenas cirurgias, tiveram uma anestesia mortal. Houve um caso em Beja e dois em Faro. Para o público as explicações têm sido pouco claras. Entretanto foram suspensos médicos em Faro e a Ordem interveio, a explicar que existe uma droga, chamada Procofol, que a Infarmed só tinha alertado parcialmente para os seus perigos, portanto a culpa não era dos médicos e sim da falta de informação.
Até aqui, apenas há a registar entre nós grande preocupação, mas sem particular escândalo. O que me deixou claramente chocada foi a resposta dada pela directora do Hospital de Beja. Inquirida por um repórter sobre o óbito no seu hospital, a senhora teve o descaramento de responder que como não estava provado que fosse essa droga a causadora da morte, até ter essa certeza continuaria a utiliza-la.
Repare-se que ela não respondeu que “não havia alternativa, e portanto até surgir uma outra hipótese continuavam a arriscar porque as cirurgias tinham de se fazer”... Seria uma resposta possível, e aceitável. Não. Disse claramente que até estar provada que a substância era nociva continuaria a ser utilizada!!! Ora o raciocínio teria de ser inteiramente inverso. Até ter a certeza de que não era nociva, teria de suspender a sua aplicação. O que está em risco são vidas humanas. E ficamos à espera até ter a certeza se causa ou não a morte?! Ouve-se e não se acredita!
M.L.

Em defesa da memória




A memória também pode ser uma arma. E boa.
Mas não a deixemos enferrujar !

M.L.

sexta-feira, 9 de abril de 2004

Santuários, afinal só na idade média.

Não, acho que não tem a ver com perspectivas de direita ou de esquerda. É apenas puro bom senso. Se há refúgio sagrado por excelência, são os templos religiosos. E posso falar disto com serenidade porque, como já tenho dito, estou distante do fenómeno religioso. Mas ainda há poucos dias nos lembrámos do horror dos massacres no Uganda, e um dos pontos chocantes foi o ataque a uma igreja, onde as pessoas se imaginavam relativamente a salvo. Agora as tropas aliadas têm a ideia peregrina de ir ao Iraque bombardear uma mesquita! Está tudo louco. Será que querem mesmo dar o aval aos fundamentalistas e transformar esta luta numa guerra religiosa, uma jihad??? É que era mesmo só o que faltava. Por todo o mundo, os templos religiosos são santuários, os militares deviam aprender isso lá na escola do exército. Ou então é mesmo de propósito, deitar-se petróleo no lume.
Ai, mas de onde me surgiu esta imagem?
M.L.

"Paixão"? Não, obrigada.

De um modo geral quando um livro, um filme, um espectáculo qualquer levanta polémica, gosto de ir lá meter o nariz para poder dar opinião com algum fundamento. Digo “de um modo geral”. Acontece às vezes não ter tempo, não ter dinheiro, distrair-me e deixar passar a oportunidade. Mas desta vez, não tive foi mesmo o menor interesse. Estou a falar da Paixão do Mel Gibson, ou de Cristo (parece-me que é de um pelo outro, mas tenho dúvidas como será mais correcto dizer).
Quando digo o não ter o menor interesse é mesmo isso, tal e qual.
*Primeiro, não aprecio particularmente filmes de tipo religioso – deve ter a ver com o meu ateísmo ou agnosticismo, não sei bem como lhe chamar. Misticismo não é comigo. O mais perto que estou é uma olhadela aos horóscopos e mesmo aí troco os signos todos...
*Segundo, gosto de alguns filmes históricos, e seria nessa condição que o poderia ir ver, mas quando o mesmo tema é tratado várias vezes perde a graça. E este tema todas as Páscoas temos as mais variadas versões nas nossas TVs. Demais é demais.
*Terceiro, o triller não é nada o meu género de estimação e pelo que ouvi isto encaixa exactamente em tal categoria. E nem sequer pode ser um bom triller porque já se sabe como acaba, e sem suspence qual é o interesse?
Não, obrigada. Ver um ser humano a ser torturado realisticamente, chicoteado durante ¼ de hora, o sangue a jorrar, enorme sofrimento físico, ...dispenso.
Será uma das vezes onde não vou ter opinião fundamentada; enfim, ninguém é perfeito.
M.L.


Em que mãos?



Abril começou em boas mãos. Agora por onde anda?
Quero acreditar que ainda está nas nossas mãos construir o nosso futuro.

M.L.
Ouguela com vida!...
Escola de Ouguela - Campo Maior - Portugal

www.eb1-oguela.rcts.pt info@eb1-ouguela.rcts.pt www.ouguela.blogspot.com


Congresso Alentejo XXI
Semeando novos rumos ...


Todo o Alentejo esteve representado em Montemor-o-Novo no congresso de todos os alentejanos...
Que lindo que é assistir à manifestação do sentir alentejano!...
Ouguela esteve presente e transmitiu um testemunho do trabalho conjunto desenvolvido entre a escola e a comunidade.
Ouvimos muito sobre os sonhos e os anseios do povo alentejano...
Ouvimos que a educação não poderá ser encarada como uma questão económica, mas sim como um direito de cidadania...
Ouvimos que o esquecimento a que alguns autarcas condenam as suas populações é criminoso....

De Ouguela vieram o Sr. António Gadanha e o Ricardo Encarnação...
...que transmitiram um testemunho pessoal do trabalho desenvolvido em conjunto pela escola e pelo Centro Comunitário.
O resumo previamente apresentado ao congresso não faz justiça ao encanto daquilo que foi a sua intervenção, mas aqui fica...

www.eb1-oguela.rcts.pt info@eb1-ouguela.rcts.pt www.ouguela.blogspot.com




Ouguela Com Vida


“Entre O Caia, o Xévora e o Abrilongo há um mundo de magia, entre o sonho e a realidade. Há um ambiente e uma comunidade com vida, que merecem ser estudados e protegidos”.
Ouguela é uma aldeia rural do Concelho de Campo Maior. Aqui, entre o Caia, o Xévora e o Abrilongo desde sempre que as populações viveram em comunhão com a natureza, cultivando a terra, pescando nas águas límpidas dos rios e vivendo em equilíbrio com a natureza.
Aqui ainda vivem a Abetarda, o Sisão e o Grou. Aqui as Bogas e os Barbos ainda sobem o rio para desovarem e para se alimentarem. Aqui o vimieiro e o salgueiro ainda dão a matéria prima com que os mais velhos nos ensinam a construir galritos, cestos e todo o tipo de artesanato.
Aqui lembram-se as técnicas tradicionais de trabalhar a terra, “de dar e tirar” dela a subsistência de todo um povo. Lembram-se também as “Estórias”, as alegrias e tristezas e os saberes ancestrais que compõem a memória cultural de um povo.
Aqui, com o apoio de organizações ambientais como o GEDA de Campo Maior, procurámos criar espaços vivos para o convívio com a natureza e a educação ambiental.
Aqui, em Ouguela, procurámos estudar as artes e os saberes ancestrais, fazendo deles o ponto de partida para os ensinamentos escolares. Desta forma, os alunos tornaram-se em construtores da sua própria aprendizagem e tomaram atitudes intervenientes na defesa da sua herança cultural e ambiental.
Juntos, estudámos a fauna e a flora locais, procurando contribuir para a preservação das espécies em vias de extinção; procedemos à colocação de ninhos e ao estudo das espécies existentes em redor da aldeia; promovemos a recolha, reutilização, e reciclagem do papel e de outros produtos; a redução da produção de resíduos provenientes do consumo das sociedades modernas; a necessidade de poupança de energia e de utilização de energias renováveis.
Em Ouguela desenvolvemos actividades de educação ambiental e de intervenção comunitária que congregaram a escola e a comunidade, em particular os idosos, que participaram na construção da horta pedagógica, recuperando os saberes tradicionais e tornando-os parte integrante da formação cívica e cultural das novas gerações.
Com estas actividades procurámos, de igual modo, permitir a criação de espaços de troca, partilha e aprendizagem entre a escola e a comunidade, contribuindo para a criação de uma escola inclusiva e reforçando os laços e a identificação entre ambas as instituições.
De igual modo procurámos partilhar estas actividades com os nossos parceiros europeus da Grécia, Alemanha, Roménia, Suécia, Itália e Espanha, com os quais desenvolvemos o projecto “De mãos dadas por uma escola melhor” que pretende reforçar os laços entre as diversas instituições vivas da comunidade.
A Internet e a intercomunicação permitiram transmitir para além do horizonte aquilo que é a razão de ser desta comunidade, trazendo de volta mensagens de esperança que criaram uma verdadeira espiral de solidariedade para com o desejo deste povo de ver valorizada a sua cultura.
Em cada dia, em Ouguela, os alunos trabalham conscientes de que a sua riqueza cultural é valorizada pelos seus colegas de escolas distantes e sabendo que o seu trabalho de pesquisa, recolha e reconstituição das tradições é valorizada por todos os que estão ligado à educação.
A Internet ensinou assim os alunos a aprender com os pais e com os avós, pois são esses os conteúdos que mais receptividade apresentam junto dos colegas com quem comunicam. Por outro lado, aprendendo com os seus familiares, os alunos aprenderam que podem ser eles mesmos “aprendizes de Pigmaleão”, transmitindo preciosos conhecimentos sobre a sua cultura não só aos seus colegas alunos mas, igualmente, aos professores que carinhosamente os incentivam a continuar no seu trabalho.
Desta forma, a Internet e todos os que através dela se juntaram aos 89 professores de Ouguela, deixaram um pouco de si no processo de aprendizagem e crescimento dos alunos. Cada um dos correspondentes tornou-se assim num actor privilegiado da afirmação de uma comunidade e contribuiu de forma decisiva para o crescimento destes alunos como elementos activos, críticos, participativos e conscientes da sua riqueza cultural, ambiental, histórica e paisagística. Riqueza essa que assim se afirmará como meio privilegiado para para a formação das futuras gerações de Ouguelenses.

Viva Ouguela!...
Viva o Alentejo!....
Viva Portugal!...

António Gadanha, Ricardo Encarnação e António Mendes
Escola e comunidade de Ouguela


Aos amigos do Cão de Guarda:

Parabéns pela democratização deste espaço!...

Isto é o verdadeiro "Empowerment"

Vocês São os maiores...

quinta-feira, 8 de abril de 2004

Ele há cada vício...

Aqui há uns dias li no "meu" BdE um post do Luís Rainha a que achei graça por me ter identificado muitíssimo com a situação. Sendo nova nestas andanças de net, blogs, posts, liks, - o que para aqui vai de termos exóticos ! – esta mania deu-me forte. Se passo um dia sem aqui vir, sinto falta, imagine-se. E tendo conseguido uns dias de férias longe de Lisboa, vim de portátil e tudo, ainda assim perdesse qualquer coisa. E, se em Lisboa tenho a netcabo que não me trás surpresas, perdida numa aldeia tenho de recorrer a outro servidor e ia-me passando quando ao chegar vi que o telefone não estava operacional! Quando a irritação passou, deu-me um ataque de riso daqueles que parece não acabarem. Só visto! Que ridículo incrível esta autêntica dependência...
Quando durante a minha adolescência mantive um diário (e ainda foi ao longo de uns 5 ou 6 anos) não sentia a mesma necessidade compulsiva de escrever. Também é certo que aqueles cadernos só eram lidos por mim própria e aqui tenho sempre a ideia de que alguém dará uma espreitadela – e fico toda orgulhosa quando há um comentário a comprová-lo.
Mas esta “adolescência” blogística também vai com certeza ser ultrapassada, e eu vou conseguir atingir a maturidade serena de quem olimpicamente faz aqui uma visita quando tem algo de verdadeiramente sério e importante a dizer. Ups! Nesse caso fechava já a porta. Algo de sério? Estou parva, ou quê?
M.L.

Também acho


Encontrei neste blog um texto muito bom, mas como não consegui o endereço certo para o linkar vou reproduzi-lo todo com a "devida vénia" ao autor

Uma percentagem significativa dos portugueses ou nasceram ou foram educados depois do 25 de Abril, e muitos deles encaram aquela data como mais uma data histórica; como sucede com todas as datas históricas, não é raro que encontremos mesmo alguma ignorância.
Pessoalmente considero o 25 de Abril uma data histórica, e que como tal deve ser considerada. Para quem teve que se confrontar com o regime anterior e com todas as suas consequências é, muito provavelmente, a data política mais importante das suas vidas; foi a liberdade, o fim de uma guerra para onde se era mandado sem o direito de a questionar, foi a aquisição de novos valores políticos e civilizacionais, foi um país embriagado pela própria liberdade.
É uma data tão importante que sentimos alguma dor quando um jovem revela pouco conhecimento ou mesmo algum desprezo pela mesma.
Ao contrário do que muitos pensam considero que isso não tem nada de grave, sendo mesmo uma inevitabilidade. Nós, os que com mais ou menos idade já vamos tendo o estatuto de cotas, conhecemos a diferença; os mais jovens ainda bem que não a conhecem.
Mas, mais importante do que conseguirem fazer uma linda redacção sobre o 25 de Abril é que encarem o autoritarismo como um absurdo, e que assumam o direito à indignação como um acto natural da nossa sociedade; e nesse aspecto, sem terem vivido o 25 de Abril e mesmo sem lhe darem a devida importância, são portadores dos seus valores, são os verdadeiros protagonistas da profunda mudança civilizacional que Portugal sofreu graças ao 25 de Abril.
Que se indignem perante o abuso, que se revoltem contra a injustiça, que digam o que a cada momento o que lhes vai na alma, que digam não à subserviência e ao despotismo e, mesmo sem o saber, estarão a interpretar melhor os valores do 25 de Abril do que as gerações que o protagonizaram e que, não rara vezes, são portadores de hábitos e princípios inquinados por um passado de ditadura.

O único acrescento é que eu chamaria Fascismo ao fascismo e não eufemísticamente "regime anterior", mas é apenas um pormenor. O nosso fascismo teve características próprias, mas os valores que o caracterizavam estavam lá...

M.L.

Quando as paredes começaram a falar




A palavra tanto tempo presa, soltou-se enfim.
O desejo de falar era tanto que até os muros falavam.
Nem sempre o talento de quem fazia estes murais era do tamanho do seu entusiasmo. Fizeram-se alguns lindos, de outros só ficava a boa vontade.
Mas essa, ninguém a pode negar.

M.L.

quarta-feira, 7 de abril de 2004

O que o tempo faz...

Há um ano, as forças que invadiram o Iraque, diziam-se forças de “Libertação” e, a acreditar-se no que aparecia escrito em certa imprensa, parecia que Bush julgava de facto que seria recebido com flores e palmas. Passado um ano, vemos aparecerem outros termos. Hoje já ouvi falar em Forças de Ocupação ( não é bem uma libertação...), ouvi falar em “Resistência”, fala-se numa unidade conjuntural de sunitas e xiitas. E nada disto dito em imprensa de esquerda.
O tempo é um grande mestre!

M.L.

Código e Educação

Hoje foi o Dia Mundial da Saúde, e parece que foi escolhido como tema as mortes na estrada e os problemas inerentes à Prevenção Rodoviária. Tirando o facto de me parecer um pouco estranha esta escolha, não me parece exactamente um “problema de saúde”, não tenho dúvidas em considerar o tema importantíssimo.
(O que diz respeito à saúde foca-se na eficiência com que as vítimas dos acidentes são atendidas, e isso parece-me uma questão de organização e eficiência de meios – helicópteros, por exemplo, que ainda é um meio raro de recolha de feridos.)
Mas vi discutida na imprensa e sobretudo rádio e TV, com muita insistência, o conhecimento do código nas Cartas de Condução. Com toda a franqueza, não acredito que os acidentes aconteçam por desconhecimento do Código! Admito que, por vezes, acontecem por não se cumprirem as regras, mas não por não as conhecer... É, como muita coisa em Portugal, as leis existem e são boas, só que não se cumprem. E quanto ao código, até acho o exame extremamente exigente e cheio de picuinhas. O que faz muita falta para uma boa prevenção é educação.
É vulgar um condutor conduzir como se a estrada fosse apenas sua e os outros fossem uns importunos, uns “penetras” que estão ilegalmente na sua propriedade. E são esses condutores arrogantes que, por nem pensarem na existência dos outros, muitas vezes provocam acidentes completamente evitáveis. Assim como a condução sob o efeito do álcool. Claro que pode haver excepções, mas o costume de países onde até se bebe muito ao fim de semana, mas sorteiam um elemento do grupo para ficar com a chave do carro – e esse só bebe sumo, parece-me de apoiar. Porque se perguntarmos à pessoa que está a soprar no balão, se está mesmo O. K., ela dirá que sim. É preciso estar mesmo muito alcoolizado para achar que não tem os reflexos impecáveis. E depois é o que se vê.
Não, isto é uma questão de mentalidade e educação e não tem nada a ver com conhecimento das Leis do Código.

M.L.

O espírito de Abril não pode envelhecer



Era criança neste dia.
Hoje é um adulto.
Tenho de acreditar, quero acreditar, que quem desenhou estas pessoas, este tanque, estas flores, hoje tenha a noção daquilo que ganhou nesse dia. Não pode estar um adulto amolecido e conformado. Quem viveu isto, não o esquece.
M.L.

terça-feira, 6 de abril de 2004

Acerca das papoilas

Vi hoje as primeiras papoilas do ano.
É sabido que o “símbolo” da Primavera costumam ser as andorinhas. Entre nós, é o animal migratório por excelência e quando partem ou chegam as andorinhas é sempre sinal de mudança de estação. É bonito o espectáculo, muito elegantes, em bandos, as andorinhas e a Primavera fazem um lindo par. Mas para mim, o que me faz sentir mesmo no íntimo que vem aí a luz, o sol, os dias grandes, é quando começo a ver papoilas. Sinto uma alegria interior quase sem motivo, para mim é a primavera.
É uma flor muito especial. Completamente selvagem, não há papoilas de estufa, não se compram em floristas. Podia ser um dos motivos de eu gostar tanto, esse toque de rebeldia, de ser mesmo flor do campo.
(É certo que falo disto em Portugal, onde se costuma ver num campo todo verde, entre margaridas, malmequeres, ou outras florinhas silvestres, uma ou outra mancha vermelha. Há países onde se cultivam campos de papoilas com outras intenções que não estéticas, como sabemos.)
Mas não é apenas esse aspecto “selvagem” e popular que me agrada na papoila. Gosto pela sua fragilidade. Gosto pela sua leveza. Por ser uma flor de existência breve. Não há ramos de papoilas envoltos em papel e com laçarote. Não se vêem numa jarra de um dia para outro. E é vermelha. Não há dúvidas quanto a isso, não as conheço de outra cor. Se a flor de Abril não fosse o cravo poderia ser a papoila.

M.L.

Silêncios

Acabo de ver, agora mesmo, no Barnabé
este cartaz e impressionou-me mais do que qualquer dos outros que eles têm publicado. Já aqui gabei e magnífica ideia que eles tiveram em reconstituir os cartazes da época. Na altura tinha dito que também tinha tido a mesma ideia, de publicar todos os dias algo alusivo ao 25 de Abril, e de facto assim tenho feito. Mas a minha homenagem é um pouco á minha dimensão. Tenho publicado o que vou encontrando e que faz sentido para mim. O Barnabé, com a explêndida colecção de cartazes de época, tem feito reviver aos mais antigos emoções várias, da comoção, à irritação, à ironia, ao enternecimento.
Este de hoje não é o famoso cartaz da Maioria Silênciosa que desencadeou o 28 de Setembro e sim o que o combateu. Mas o "boneco" está lá, e ainda arrepia. E até a designação provocatória e insultuosa de "silenciosa" quando se algo se tinha conquistado era exactamente o direito á palavra, já dava logo vontade de discutir. O curioso é que essa atitude se mantem muito. Encontramos ainda muito por aí, gente que se vitimiza conscientemente dizendo que "nem diz nada" insinuando com isso que tem muito que dizer mas não pode... É uma atitude que me irrita bastante. Essas pessoas poderão dizer que não encontram palavras, ou não têm o dom de saber falar, ou por pessimismo acham que ninguém os vai ouvir. Agora escolher o silêncio como opção, e chutar a responsabilidade para os outros parece-me...Não queria ser agressiva e risquei a palavra que me ocorreu. Como vou dizer? ...um receio injustificado! Quem lhes faria mal se se queixassem?
E a tal Maioria Silenciosa, foi o que se viu... Silêncio podia existir, mas maioria???
M.L.

Para Memória





FOI ESPERANÇA, ALEGRIA, O FIM DE UM MUNDO SOMBRIO E O NASCER DE TODAS AS MANHÃS



M.L.

segunda-feira, 5 de abril de 2004

Saudosismos

Houve um filme aí dos anos 50 ou 60, de René Clair, que em português teve o título de "O Vagabundo dos Sonhos" mas creio que em francês se chamava "Les belles de nuit" que, não sendo nada de muito especial, abordava um tema interessante. Bastante optimista, como de uma forma geral os deste realizador, tipo Kapra à francesa, era protagonizado por um actor que morreu muito novo, Gérard Philipe. Este encarnava um jovem músico em males de amor e de dinheiro que durante a noite ia sonhando com o mundo, em épocas sucessivamente mais remotas. Esses sonhos iam-se justificavando porque no momento em que decorria a história existia um velhote, rabugento, que implicando com tudo o que se passava na actualidade, repetia como um refrão: "Ah, no meu tempo...No meu tempo é que era!" e concluía-se que "no tempo dele" a vida era bastante cor-de-rosa.
O dito músico-sonhador na noite seguinte, procurava esse el-dorado que era a tal época do velhote, e no seu sonho onde as personagens viviam com outras roupagens e outros hábitos mas mais ou menos os mesmos problemas, aparecia de novo o mesmo velhote integrado nessa outra era, com a lenga-lenda de que “no meu tempo é que era”. Já se está a ver que tudo ia regredindo de noite para noite, renascença, idade média, antiguidade, acabando ( ? ) na pré-história com o velho a fugir de um mamute e a gritar que “no meu tempo é que era”.
A moralidade da história era de que todas as épocas se equivalem e a nossa nem era assim tão má como isso. Lembro-me de vez em quando desse filme, perante certos “esquecimentos” das pessoas. É claro que, para quem tem hoje 30 anos ou menos, o 25 de Abril é História. E faz parte da natureza humana ser um pouco como o velhote e acreditar que hoje é mau portanto dantes deveria ser melhor. E, infelizmente, a mensagem que muitas vezes passa é que o que não havia antes do 25 era apenas liberdade de opinião, mas o resto nem era assim tão mau como isso...
Ora era muito bom, que enquanto ainda estão vivos e com memória, os que viveram nos anos 60, 50, 40, testemunhassem o que era o dia a dia desse tempo. Que dissessem que, embora a liberdade de opinião fosse a parte do iceberg que se via e portanto era óbvia e inegável, a falta de liberdade era um cancro que roía toda a sociedade com as consequências mais devastadoras. Era a cultura, a ciência, a economia, o dia a dia mais comezinho e aparentemente inocente que era afectado. Por favor expliquem aos jovens a quem já oiço dizer que também não era tão mau como isso...
Pois era sim. Era pior do que isso.
M.L.


Arte para Carlos Paredes

(por José Luís Peixoto)

A história do homem é a memória. É uma memória que está dentro de um tempo que tanto pode ter passado, como pode estar a acontecer neste momento, como pode esperar-nos no fim de uma estrada futura. A história do homem somos nós a viver com ele, por ele, através dele. A história do homem é um milagre que existe sempre onde o conseguirmos ouvir, ver, sentir.

Aqui Posto de Comando

Interessantíssima iniciativa
PARA OS QUE LUTAM PARA QUE ABRIL NÃO CAIA NO ESQUECIMENTO, QUE A REVOLUÇÃO NÃO AMOLEÇA NUMA EVOLUÇÃO
Vão lá ver e participem. Seria bom que fôssemos muitos.
Força!
M.L.

Muito obrigada, Sara cacao

Já uma vez lhe agradeci, nest post um bocado mais abaixo mas sinto cada vez mais que não foi o suficiente. Meti-me por estes atalhos dos blogs sem saber ler nem escrever... Primeiro lia timidamente o que se escrevia em sítios que ia pouco a pouco descobrindo e apreciando. Depois, um passo em frente, comecei a comentar, ainda de uma forma muito acanhada. Das primeiras vezes assinei com uma parte das minhas iniciais que tinham um sentido especial para mim, mas como eram muitas, às tantas decidi reduzir às básicas. Os comentários foram-se ampliando, e muito divertida já entrava em verdadeiras “conversas” com outros comentadores. De blog em blog e de link em link, vim descobrir o Cão de Guarda, blog aberto. Como tinha a convicção de nunca vir a ter sabedoria para abrir um blog mesmo meu, isto foi uma dádiva dos céus! Gosto de escrever, e mesmo que parecesse um exercício um pouco autista, comecei a escrever aqui. Só que isto é, como já se sabe, deveras viciante.
A pouco e pouco achei que era chato estar a fazer copy/past dos textos que achava interessantes e quis aprender a fazer links. Upss! Enorme montanha a transpor! Um mundo completamente desconhecido. Fiz um apelo a um jovem amigo, muito sabedor, que no PC dele, fez esvoaçar os dedos pelo teclado numa fracção de segundo e achou que me tinha ensinado tudo!
Nestas situações uma pessoa tem vergonha de insistir. Achei-me muito burra, e disse-lhe que estava bem, mas a verdade é que tinha ficado quase na mesma.
Como entretanto tinha trocado uns mails com a Sara Cacao, pareceu-me tão simpática que me decidi a pedir-lhe auxílio.
Com a maior naturalidade, mostrou-me como se fazia tudo, ensinando-me mesmo coisas que não me tinha atrevido a pedir-lhe. Quando consegui colocar a primeira imagem agradeci.
Mas hoje queria mostrar um agradecimento melhor e enviar-lhe (usando a técnica ela me ensinou) um quadro de um dos meus pintores preferidos, numa das minhas cidades preferidas. Claro que não faço a menor ideia se ela aprecia as minhas preferências, que não a conheço. Mas este é menos impessoal do que o pôr-do-sol do outro dia, porque queria mesmo mostrar a gratidão à excelente professora que a Sara foi. Não lhe posso dar nada a não ser o meu reconhecimento! Mas esse está mesmo assegurado.
M.L.

Vai fazer 30 anos



Uns já não se lembram, outros não se querem lembrar, e outros nunca souberam.
Mas, felizmente, há quem NUNCA esqueça



M.L.

domingo, 4 de abril de 2004

Se não se tratasse do Bush, até tinha tido pena...

Primeiro foi aqui na net, mas sexta até passou no Telejornal! Agora, não podemos ignorar.
O Barnabé com a habilidade do Daniel, conseguiu os bonecos Um discurso do senhor presidente dos E.U. foi comentado da maneira mais extraordinária. Cá para mim, ninguém me convence que aquilo não foi montado por um “submarino” democrata que quis sabotar aquela actuação.
Primeiro a escolha do rapaz. Quando na notícia se referiu que uma criança tinha bocejado, antes de ver, imaginei um gaiato de uns 5 anos, vivaço, engraçadinho, buliçoso e que não parasse quieto. Aparece um mastronço, típico adolescente lá dos states com o efeito da fast-food a notar-se bem nos quilos a mais, vestimenta também típica, expressão enfadada, e colocado mesmo na tribuna ao lado do “discursador”. Ná, aquilo foi sabotagem! Porque ainda por cima, se tivesse sido apenas descuido, logo a seguir ao primeiro colossal bocejo (cá em Portugal ensina-se que se põe a mão à frente da boca) deveria haver alguém do protocolo a puxá-lo para lugar menos em evidência... Não senhor. Deixaram-no fazer o número todo, olhar as horas, fazer ginástica com o pescoço, voltar a bocejar, mais outro olhar ao relógio... Impossível!
Numa visão mais construtiva, ocorreu-me que o rapaz estivesse ali numa delicada atenção para os assistentes que fossem deficientes auditivos e aquilo seria a tradução do discurso em linguagem gestual. Só que deveriam ter explicado antes para não parecer mal. Se assim foi, então o puto foi mesmo muito expressivo.

M.L.

Continuamos em Abril!




Será que não estamos esquecidos?
Abril continua...



M.L.

sábado, 3 de abril de 2004

Escolhas

Quando se passa por uma feira mesmo de rua, ou se vai à praça, há um pregão que se ouve com frequência: “É barato e podem escolher!” ou variantes da mesma mensagem que também se vêem nos saldos mas surgindo sempre como ideia-força essa grande informação: PODEM ESCOLHER!
Desde sempre que esta frase me irritou. Porque nos é dada como uma vantagem, um prémio, tipo “vejam que bom, este produto é útil, de boa qualidade, barato, e podem escolhê-lo”. E penso de imediato: “Era mesmo o que faltava! Então não havia de poder escolher?!” Para já, a primeira de todas as opções que é - escolher não o comprar. Bem, eu creio que o que está em causa é mais uma questão de português, o que eles querem dizer é que existe *variedade*, há camisolas com vários padrões, hortaliças ao molho ou à peça, por aí a fora. Calculo eu.
Mas a frase está lá, a beliscar o meu direito a escolher. E esse direito é um dos que eu menos abdico. Acho que define todo o meu comportamento e a minha vida. Toda a vida é feita de escolhas, por vezes dia a dia, ou até minuto a minuto. Escolho os meus amigos, escolho o tipo de vida que prefiro, escolho o que como, as horas que durmo, as minhas prioridades. E sobretudo escolho que não escolham por mim!
Dito assim, o que acabei de escrever soa a uma insuportável arrogância. Sei bem que há escolhas impossíveis. Se fiquei desempregada, não posso “escolher” arranjar outro emprego num ápice. Se estou doente não posso “escolher” ficar boa. Agora posso e devo, lutar, e não cruzar os braços. Essa atitude já é uma escolha.
Acredito do fundo do coração no livre-arbítrio. Gosto de conselhos, mas sigo os que me agradam – detesto que mandem em mim. E, se calhar tudo isto vem a propósito das opções políticas. Já tenho feito muito “voto útil” engolindo autênticos elefantes. Mas optei, escolhi. Agora olho à minha volta e sinto-me cheia de dúvidas, o panorama não é dos mais felizes, as opções estão limitadas. Mas não, não me vou resignar, tem de haver uma saída a questão é encontrá-la.
Escolho lutar!
M.L.

O mês ainda agora começou.




Mais uma recordação para não esquecer Abril.
É História, mas ainda lhe tocamos com a ponta do dedo...



M.L.

sexta-feira, 2 de abril de 2004

Antecedentes...


Li aqui, no Blogo Social Portugues uma explicação para a queda do R nos cartazes dos senhores promotores das Comemorações de Abril. E até mesmo quanto às comemorações propriamente ditas, devem ter pensado de si para si que "lá terá de ser"... imagino eu.
Cá por mim, embora goste de evoluir, a noção em si é-me muito simpática, mas o termo evolução quando aplicado à política associo-o, inevitavelmente, ao Marcelo Caetano. É fatal. E temos de reconhecer que aquela Primavera foi um bocadito murcha.
A Revolução é um espaço aberto, de verdadeira liberdade, e que sobretudo não está limitada em nada. Para mim a revolução não FOI em 25 de Abril e sim COMEÇOU em 25 de Abril! Não foi um momento cristalizado. Mas parece que é isso mesmo que se pretende.


M.L.

A Homenagem na Hora Certa

Assisti, há poucos dias, ao um lançamento de um livro que foi simultaneamente uma lindíssima festa. Não era um romance, embora quase se possa encarar como tal. Era um livro técnico onde o autor enquanto descrevia o seu método de trabalho e respectivos fundamentos ia fazendo deslizar a história da sua vida. O que foi comovente, foi confirmar as centenas de amigos que lhe foram dar um abraço. E digo, amigos, não assistentes a um acontecimento. Poucas vezes na vida tenho sentido vibrar uma emoção com tal densidade que se "via" no ar como um fumo colorido. O leque de idade das pessoas era bastante aberto porque apesar de, naturalmente, predominarem as da idade dele, em fim de carreira, também havia muitos, mas muitos, jovens. Viam-se mesmo algumas crianças levadas pelos pais - até uma neta do próprio autor, bebé de 3 meses! Mas todos ou quase todos se conheciam bem entre si, tratavam-se por tu, diziam as frases da praxe: "Eh pá, aos anos que não te via! Tás na mesma!" ( é sempre bom ouvir isso, mesmo sabendo que não é verdade...)
E o nosso amigo no meio dessa multidão de afecto. Ao chegar ao palco disse "Sinto-me o Wally...!" e estava bem visto, porque quase desaparecia. Mas o que eu queria referir é que talvez alguns dos que ali estavam lhe quisessem dar um abraço especial. Há poucos anos ele teve um AVC grave. Como é uma força da natureza, recuperou magnificamente. Mas os amigos tinham ficado de respiração suspensa. Porque tendo um feitio especialíssimo, que só ele, nós sorrimos, abanamos a cabeça e dizemos: "É mesmo de fulano" com enorme ternura. Ele é ele. Não há ninguém igual. É uma pessoa de tal generosidade, e com um coração tão grande, que mesmo quando não concordamos - e se ele é teimoso! - , rimos e passamos à frente.
Ora era exactamente agora que se justificava a homenagem. Na altura do AVC era de mau gosto, parecia um rebuçado para ajudar à cura. Daqui a 10 ou 20 anos sabe-se lá quantos dos que ali estavam estarão lúcidos e com forças para o tal abraço. Agora sim. Não é um fecho de carreira, que uma carreira daquelas continua sempre aberta, mas um forte agradecimento dos que beneficiaram da sua influência, e aprenderam com ele.
Foi uma tarde inesquecível.

M.L.

No poupar é que está o ganho!

Os nossos governantes andam muito poupadinhos. Só numas coisas, é bom de ver. Algumas coisas são mesmo necessidades básicas tal como actualizar a frota automóvel, para os dirigentes claro, que a outra anda uma miséria.
Mas por último, uma das novas ordens teria graça se não fosse as consequências para um normal funcionamento dos serviços.
Até há pouco tempo, quando um aparelho não funcionava, telefonava-se para a empresa de manutenção, o especialista lá aparecia mais tarde ou mais cedo e o problema resolvia-se. Os "serviços centrais" acertavam depois contas deste trabalho.
Mas acontecia que, de vez em quando, o tal especialista que vinha consertar o fax, a fotocopiadora, lá o que fosse, considerava que não havia bem avaria, era qualquer coisa mal feita sem grande importância e cobrava apenas a deslocação. Perante isso, uma bela ideia surgiu na mente dos nossos chefes para poupar uns cobrezinhos – nesses casos, a deslocação passaria a ser paga por quem chamou o técnico! Ou seja, ou é uma coisa séria, com substituição de peças ou talvez uma intervenção demorada, ou então tenham mas é juízo e desenrasquem-se sozinhos!
Não é preciso saber ler os astros para prever o que aí vem. Se uma máquina tiver um problema, daqui para a frente, vai ficar posta em sossego e ninguém lhe mexe. Porque o funcionário, que não sabe o que ela tem, vai pensar “se calhar é sério e vale a pena chamar o especialista... mas se não é? Como é que eu sei? É coisa difícil? Se calhar não é... Ai, Jesus, o que é que faço? Chamo ? Ná, o melhor é ficar assim... Olha não se usa, paciência.”
Brilhante, não será? É assim que se quer uma Administração Pública expedita e de resposta pronta e eficiente. E “as economias” daqui resultantes são risíveis, mas grão a grão vai dar para comprar mais um topo de gama para um senhor ministro.

P.S.
Ideia: e com umas marteladas no tal aparelho se tornasse de facto a avaria mesmo grave? Estava tudo safo!
M.L.

É bom nunca esquecer!




CONTRA O ESQUECIMENTO!!!


M.L.

quinta-feira, 1 de abril de 2004

Pois, mas realmente ajuda muito!


Num divertidíssimo post do Luis Raínha que acho que se deve ler incluindo fatalmente os comentários, foca-se um ponto que tem que se lhe diga. É que essa treta do dinheiro não trazer a felicidade, foi inventada pelos ricos, propriamente ditos, para afastarem a inveja. Lá que não chega, concedo. Deve haver para aí uns ricos, mesmo podres de rico, que não sejam lá muito felizes... Mas, se calhar, se fossem pobres eram ainda mais infelizes.
Sem chegar ao requinte da sátira do comentador Afixe, acho que as preocupações são mesmo outras. O sentimento (é um "sentimento"? agora não me parece...) de felicidade ou não infelicidade terá mais a ver com o modo de encarar a vida. Há tipos optimistas ou pessimistas em todas as classes sociais, mas cá para mim o pessimista rico safa-se muito melhor.
É. Definitivamente essa de os ricos andarem mal de amores etc e tal foi inventada por eles para evitar o mau olhado!
M.L.

Não se tratem, não...

Mas o que se passa na nossa terra? Por vezes tenho a sensação que regredimos alguns séculos e vivemos uma constante “caça às bruxas”. Do velho estereotipo “bom povo” hospitaleiro, tolerante, generoso, caímos agora no extremo de desconfiança permanente onde cada ser humano pode ser um perverso em vias de actuar contra a inocência desvalida.
Vou contar uma história que se passou há poucos dias.
Local – Um Jardim de Infância, em Lisboa, local central.
Hora – Cerca das 11da manhã, hora de recreio.
As crianças brincavam no jardim do infantário que é contornado por um gradeamento e reforçado por uma rede. O portão só abre por dentro e o trinco está fora do alcance das crianças. Passa uma senhora que conversa com uma das crianças, sob o olhar da educadora que não se aproximou. Após uns minutos de conversa, a senhora bate à porta e pede para falar com a Directora. No gabinete desta, prega-lhe uma enorme descompostura, exaltadíssima, que aquelas crianças estavam em grande perigo. A directora fica atónita, até perceber que essa senhora achava gravíssimo a educadora não ter corrido a afastar a criança, porque se ela fosse mal intencionada poderia ter dado ao menino algo que lhe fizesse mal! Aquilo tinha sido uma experiência e queria apresentar uma queixa.
Não inventei nada. Esta história é mesmo verdadeira, e eu nem faço comentários.
M.L.

Será?

Ensinaram-me agora mesmo uma experiência interessante.
Dou-lhes o mesmo conselho:
Vão ao Google e pesquisem a palavra - estúpido.
Vejam a primeira entrada.
Não conto mais nada...
Olhem que eu cá não tenho a culpa.
M.L.

Não é possível!


Li ISTO e não acredito! Vou ver se leio mesmo o inquérito, porque apesar de não estar sempre a pensar que "a culpa é dos jornalistas" que não se explicam bem, acho isto tudo tão aberrante, que deve ter uma outra explicação... Caramba, aquela gente do M.E. também não é assim tão má. Que raio se passou?
M.L.

Viva Abril !

VIVA ABRIL!


Hoje abri o Barnabé e senti-me roubada. Não é que eu tinha tido exactamente a mesma ideia? Bom, dizem que "les bons esprits" ... etc e tal. Mas, pronto, não vou desistir. O pior é a minha terrível inexperiência nestas artes de copiar imagens, mas quem dá o que tem...





M.L.

quarta-feira, 31 de março de 2004

Correr riscos

Como achega ao post mais atrás, "Pintainhos", encontrei um FW mais ou menos esquecido que não resisto a copiar para aqui. Não sei quem o escreveu, mas ao circular como FW tornou-se público! Estes pintos já não são Kalimeros
Para quem já tem mais de 22 anos... faz pensar que até tivemos sorte...
Olhando para trás, é difícil acreditar que estejamos vivos.
Nós viajávamos em carros sem cintos de segurança ou air bag. Não tivemos nenhuma tampa à prova de crianças em frascos de remédios, portas, ou armários e andávamos de bicicleta sem capacete, sem contar que pedíamos boleia. Bebíamos água directamente da mangueira e não da garrafa.
Gastámos horas a construir os nossos carrinhos de rolamentos para descer ladeira abaixo e só então descobríamos que nos tínhamos esquecido dos travões. Depois de colidir com algumas árvores, aprendemos a resolver o problema. Saíamos de casa de manhã, brincávamos o dia inteiro, e só voltávamos quando se acendiam as luzes da rua.
Ninguém nos podia localizar. Não havia telemóveis.
Nós partimos ossos e dentes, e não havia nenhuma lei para punir os culpados. Eram acidentes. Ninguém para culpar, só a nós próprios.
Tivemos brigas e esmurramos uns aos outros e aprendemos a superar isto.
Estávamos sempre ao ar livre, a correr e a brincar. Compartilhamos garrafas de refrigerante e ninguém morreu por causa disso.
Não tivemos Playstations, Nintendo 64, vídeo games, 99 canais a cabo, filmes em vídeo, surround sound, telemóveis, computadores ou Internet.
Nós tivemos amigos. Nós saíamos e íamos ter com eles. Íamos de bicicleta ou a pé até casa deles e batíamos à porta. Imaginem tal coisa! Sem pedir autorização aos pais, por nós mesmos! Lá fora, no mundo cruel!
Sem nenhum responsável! Como conseguimos fazer isto?
Fizemos jogos com bastões e bolas de ténis e comemos minhocas e, embora nos tenham dito que aconteceria, nunca nos caíram os olhos ou as minhocas ficaram vivas na nossa barriga para sempre.
Nos jogos da escola, nem toda a gente fazia parte da equipa. Os que não fizeram, tiveram que aprender a lidar com a decepção... Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros. Eles repetiam o ano! Que horror! Não inventavam testes extras.
Éramos responsáveis por nossas acções e arcávamos com as consequências.
Não havia ninguém que pudesse resolver isso. A ideia de um pai nos protegendo, se desrespeitássemos alguma lei, era inadmissível! Eles protegiam as leis! Imaginem!
A nossa geração produziu alguns dos melhores compradores de risco, criadores de soluções e inventores. Os últimos 50 anos foram uma explosão de inovações e novas ideias. Tivemos liberdade, fracasso, sucesso e esponsabilidade, e aprendemos a lidar com isso.

Claro que isto não pretende ser uma crítica aos jovens actuais, até porque quem os educa são os pais, mas a verdade é que certos riscos, paradoxalmente, ajudam à segurança.
M.L.

"A minha política é o trabalho"

Apesar de já ter as minhas ideias sobre o assunto, esta notícia do D.N. veio confirmar as minhas convicções. Com honrosas excepções dos "jotinhas" dos partidos, e muitos jovens que se envolvem em movimentos anti-globalização, ou de algum modo pacifistas, a verdade é que a juventude, e não só a portuguesa, parece desacreditar no instrumento base da democracia que é o voto popular. De uma forma geral, segundo a expressão popular "não sabem, não querem saber e têm raiva a quem souber". Transmitem a ideia de que a política "é suja", os políticos têm inúmeros defeitos ( como se as outras profissões os não tivessem) e sobretudo não há nada a fazer, o melhor é afastarem-se e ignorarem esse mundo esquisito e aborrecido. Quando se lhes diz, que essa atitude também é uma atitude política ficam furiosos e nem se consegue explicar o nosso ponto de vista. Já estou fartinha de ter passado por isso...
Só à minha volta estou a lembrar-me de 4 casos, e em famílias onde o modelo não é esse. Um jovem muito inteligente, num ano adiantado de engenharia informática estranhou que a manifestação de 20 de Março pudesse não ter autorização. "Mas é preciso autorização? Isso era antes do 25 de Abril!"; outro, também muito inteligente, interessado por muitas coisas e a terminar um curso de realização de cinema, "não teve tempo para se recensear"
Às vezes, por maldade vem-me à cabeça, a ideia de se alterar a idade de 18 para 25. Eles dariam conta? Tanto imagino que começavam a protestar e aí se interessavam como, o provável, é que nem dessem por isso. A sua política pode "não ser o trabalho", mas são obviamente outros interesses que não passam pela intervenção social.
M.L.

Pintaínhos...?


O tema não é novo para mim, mas esta manhã ao ouvir na Antena 1 o Nicolau Santos e, vendo de novo um enorme engarrafamento à porta de uma escola, senti necessidade de o partilhar.
O Estado tem um papel importante de regulador das relações entre os cidadãos. Deve manter a ordem, evitar crimes entre as pessoas, apoiar os mais fracos, etc. Claro que nem todos temos as mesmas ideias sobre esse papel, e isso é nítido quando se defrontam conceitos de esquerda e direita. Mas há duas imagens que me inquietam:
o Estado-Polícia, e o Estado-Mamã.
Quanto ao primeiro, estamos entendidos, não vou acrescentar nada. Mas a que é que chamo Estado-Mamã? É quando somos protegidos "à força". Que os serviços públicos tenham a obrigação de avisar e prevenir de perigos possíveis parece-me pacífico. Mas o que é feito do livre-arbítrio de cada um? É que, com franqueza parece-me assistir a um movimento impressionante do desejo de envolver toda a gente em algodão em rama. Uma coisa que se aprende em pedagogia é que uma acção educativa só é eficiente quando é aceite "de dentro para fóra", é feita por se acredita no que se faz e não porque nos mandam.
Hoje o Nicolau Santos, a propósito da polémica do fumar, lembrou que os utensílios de madeira (colheres de pau, tábuas de bater bifes) tinham sido condenados por poderem transmitir germens. Eu sabia. Mas na casa de cada um continua a haver colheres de pau, eu respeito muito a ciência, mas não mandem na minha cozinha! Lá que é por bem, não tenho dúvida, mas cada um perante as informações tem de fazer a sua escolha pessoal. É que se corre o risco de perante uma chuva de excesso de informação, e muita dela, contraditória, não se ligar mesmo a nada! Está-se a infantilizar o cidadão, tratado como pintainho indefeso sob a asa protectora da galinha.
E é este modelo que se transmite aos miúdos. O tal constante engarrafamento que referi acima, veio lembrar-me os meus tempos de criança, quando aos 9/10 anos ia sozinha para a escola. Ia de transporte público, que eu morava no Areeiro e a escola era entre o Rato e o Príncipe Real. Acredito que me tornou mais responsável. E os meus pais não tinham de se ralar em me ir levar ou trazer, iam fazer o trabalho deles. Havia obrigações bem definidas e desde cedo éramos responsáveis pelos nossos actos e pelas nossas escolhas.
Estas crianças que vão para a escola no carro dos pais não se sabem, de facto, orientar sozinhas. É divertido não "terem tempo" para brincar entre eles, que é um exercício natural, porque essa é a hora de ir a um ginásio onde vão receber o estímulo que poderiam receber naturalmente e de graça.
Mundo cómico este, não é?
M.L.

terça-feira, 30 de março de 2004

Fumar ou não fumar

Não sei se alguém se lembra de dois filmes franceses ( ou podemos considerar um, “duplo” ? ) que passaram já há uns anos nos nossos cinemas, chamados, exactamente, um deles "Fumar" e o outro "Não Fumar". Era quase um exercício de estilo, uma história contada e recontada por diversas personagens sob o seu exclusivo ponto de vista. No filme "Fumar" toda a gente fumava. No filme "Não fumar" a história era rigorosamente igual mas ninguém fumava. Creio que o filme era do Resnais, mas já não vou jurar. Era leve, engraçado e nada tonto porque o que demonstrava era a enorme subjectividade com que se encara o grosso dos acontecimentos que nos rodeiam, a história era um caleidoscópio de opiniões.
Quando ontem ouvi a notícia sobre a lei irlandesa a propósito do tabaco, tive a certeza de que iria dar faísca por aqui na blogosfera. Era óbvio e os cerca de 80 comentários num post do Barnabé vieram logo confirmar esta previsão. Não fui lá comentar, já o tinha feito mais atrás quando o assunto tinha sido anteriormente abordado, e havia ali pano para muitas mangas mesmo sem a minha ajuda. Mas, não resisto a dar também opinião.
Não sei se interessa ao caso, mas não fumo. O meu vício é mais o café. Mas sou bastante tolerante com quem o faz, não me incomoda sentir um ou dois cigarros acesos na sala onde estou. E ainda por cima, graças a todas estas campanhas, a minha experiência pessoal é que os fumadores estão muito mais comedidos. Uma nota interessante é que se pode situar um filme no tempo pelo facto das personagens andarem ou não de cigarro na mão. Hoje, uma pessoa tira um maço e a cortesia manda perguntar "Não te incomoda?", há umas dezenas de anos, era-o tirar o maço e oferecer. Creio que é sintomático.
É claro que tudo o que é proibido gera logo anti-corpos a desafiar. E o que eu sinto é que "não havia necessidade" como diria o nosso diácono. O caminho tem-se feito, lentamente talvez, mas no mesmo sentido. Hoje achamos natural não se fumar nos cinemas, mas antigamente fumava-se e muito. Hoje não se fuma em transportes públicos, mas é coisa recente. Já há uns anos que não andava de avião e riram-se quando pedi um lugar de "não-fumadora"; afinal agora são todos. Mesmo nos restaurantes não se vê assim tanta gente a fumar... A pressão social está a fazer o seu caminho. E acredito que uma lei tão severa tenho um efeito perverso: o fruto proibido é o mais apetecido, e pode haver quem a queira desafiar exactamente pela proibição.
Se calhar tenho sorte. Lembro-me de reuniões de trabalho de 15 pessoas, por exemplo, onde 2 ou 3 não fumavam e a sala parecia um aquário de fumo; hoje a percentagem inverteu-se são 2 ou 3 que necessitam fumar e vão para o corredor ou à varanda. Civilizadamente. Ninguém lhes ralha, e creio que não se sentem discriminados.
É que receio muito os fundamentalismos. E implicar com a liberdade de cada um. Isto anda tudo muito poluído, talvez devêssemos é andar de máscara como se vê muito no oriente. Assim já filtrava tudo - tabaco, tubos de escape, porcarias que andam por aí. Que tal lançar a moda? Um pouco paranóico, não?
M.L.

Confissão de Ignorância

Oiço agora na rádio que a Nato foi alargada a mais 7 países e sentia-se que com bastante gáudio de quem o estava a comentar. Fico perplexa. Lembrava-me que esta organização militar tinha sido criada após a última Grande Guerra para servir de tampão ao alastramento do movimento comunista. Caiu o Muro de Berlim e essa tal ameaça, que se note, não parece já existir. O que alastra é a própria Nato. E para que é que serve? Engloba agora quase toda a Europa e os E.U. Vai defender-nos de uma ameaça, parece. Qual? Do terrorismo não, pelo que já se viu, não é essa a sua vocação. Quererá dizer que se a Coreia do Norte nos atirar com uma bomba atómica a Nato abre um guarda-sol anti-bomba? Talvez também não seja bem isso. Tenho uma ideia que para resolver conflitos, no ovo, antes de sairem da casca, havia a O.N.U. e a diplomacia. Devo reconhecer que minha ignorância é grande e cada vez mais aquilo me parece um grupo de meninos a brincar aos soldadinhos. O pior é que é um brinquedo bastante caro, em tempo de enormes dificuldades económicas - fala-se em crise - e onde o dinheiro para políticas sociais anda bastante arredado. Deve ser por isso que o Dr. Portas anda agora recrutar rapazes para as Forças Armadas - é para combater o desemprego. Lá vai servir para alguma coisa.
Mas isto sou eu a pensar, que não entendo nada disto.

M.L.

segunda-feira, 29 de março de 2004

Com amigos destes não há necessidade de inimigos

Eu não ouvi com os meus ouvidos. Limito-me a citar uma informação que outras pessoas, que considero fontes fieis, me fizeram chegar. E sobretudo, como conheço a senhora acredito piamente que ela disse exactamente o que me relataram. E os factos são estes:
Há pouco tempo, aquela figura inclassificável que dirige o Centro Aboim Ascensão lá no Algarve voltou a proferir umas declarações ao arrepio de tudo o que é justo e legal. Parece que lá no seu exemplar domínio, onde as criancinhas desamparadas recebem todo o conforto, mimo, e bens materiais se tropeça, apesar disso, num pequeno senão. Ali acolhe-se todos os meninos desde que ... sejam normais. Normais ???!
Estão a ver ? Criança com deficiência ou doença isso já é outro material, é melhor não se chegarem. Mas como o Sr. Major Vilas Boas já tinha revelado toda a sua capacidade de empatia com minorias, de sensibilidade, de actualização com os mais recentes dados científicos, dele já pouco me espantaria. Aliás foi muito interessante vê-lo na TV a “esquecer-se” de que anteriormente tinha sido entrevistado como “psicólogo” (!?) - daí o escândalo que as suas palavras motivaram - e passar a falar exclusivamente em lei. Parecia até muito entendido nessas artes. Entende-se, portanto, a excelente relação com a Presidente da Comissão de que faz parte, a Dra. Dulce Rocha.
Ora é exactamente a Dra. Dulce Rocha que me motiva o post de hoje.
O que me contaram é que, entrevistada pela TV, ( e esta senhora nunca perde uma ocasião de aparecer no pequeno ecran ) ela acudiu pressurosa em defesa do major Vilas Boas achando muito natural que se “defendessem” as outras crianças do tal Refúgio de uns contactos maléficos. Estou a imaginá-la na sua vozinha melada, a esclarecer que era natural proteger os outros meninos, coitadinhos, que podiam não se sentir bem ao pé de crianças com deficiência ou doentes. Ficavam logo contagiados com a deficiência, não é? Mas a Dra. Dulce é jurista, magistrada como refere muitas vezes, era curadora de menores portanto tudo isto são motivos para conhecer a Declaração de Salamanca que exactamente é muito explícita quanto à não-segregação de qualquer deficiência e Portugal assinou e comprometeu-se a cumpri-la! E, se não me falha a memória, esta senhora até foi há alguns anos, a presidente da Comissão Nacional dos Direitos das Crianças que tinha como maior função a defesa da Convenção dos Direitos da Criança Convenção essa que Portugal foi dos primeiros países a assinar e muito bem.
Esse documento, que a Dra. Dulce Rocha deve conhecer de cor e salteado, afirma, no artigo 23 exactamente o contrário do que diz a douta magistrada. Alguém anda muito distraído!
Ou, o que é mais provável, há teias tão preciosas e que nos podem levar tão alto que é muito melhor estar de bem com esses interesses do que estragar essa valiosa e protectora rede. Mesmo que quem assim se prejudique sejam as crianças. As tais que ela jurou proteger.
Mas proteger de quem?
M.L.

domingo, 28 de março de 2004

A França Cor-de-rosa

Acabo de ouvir as notícias sobre os resultados eleitorais em França. Fui espreitar
ao Le Monde e confirmava-se o que acabava de ouvir. É claro que não dá para embandeirar em arco, mas parece que a maré está a mudar.
Estou á espera de ouvir um coro de vozes a esclarecer que eram APENAS regionais, etc, etc. Sei muito bem que são regionais. Também me lembro que foi com um resultado destes que o PS se foi embora...
Que as regiões onde a vitória foi de esquerda estejam em cor-de-rosa, já é simpático, mas do que gosto mesmo é ver as outras em cinzento! É que é uma não-côr, cinzento é o tom exacto. Hoje vou dormir melhor.
M.L.

Barnabé no seu melhor


Desculpem, porque de certo quem passa por aqui já passou antes pelo Barnabé, blog de referência. Mas eu achei tanta graça, mas mesmo tanta a
esta observação que não quero que a percam. Quem ainda lá não foi , vá lá rir um pouco.
E quem diz que o humor não é uma arma?
Mortífera!!!
Mas é mortífera quando usada com inteligência e quando tem de facto graça.

M.L.

Ora chega, chega, chega, ora arreda lá p’ra trás





Na Primavera e Outono temos uma dança das horas especial. Costumamos refilar, o refilanço faz parte da nossa natureza, mas a verdade é que estamos acostumados e ano onde isto falhasse toda a gente ia estranhar e os protestos seriam ao contrário. No tempo do Cavaco houve uma alteração que caiu muito mal! Tão mal que não se repetiu.
Também já se sabe que, quer atrase quer adiante, nunca agrada ( ou desagrada ) a todos. Quando há mais luz de manhã, gostam os que se têm de levantar cedo e custa tanto saltar da cama com noite escura... Dizemos que “é outra coisa”, um raiozinho de sol de manhã dá outro gosto à vida! Mas como o tempo não estica, nessa altura também passa a anoitecer mais cedo o que põe de mau humor outra fatia de portugueses. Só um parêntesis, que se o tempo não estica muitas vezes parece que encolhe!
Hoje, Domingo, caminhamos ao contrário. Vamos acordar com menos luz, mas também para compensar vai anoitecer “mais tarde”. Isto merece aspas porque o que tem graça é que anoitece e amanhece sempre na mesma altura: quando o sol se levanta ou se põe. A natureza é muito regular e certinha, os homens é que têm manias! O que dança são os nossos relógios, uma invenção do homem. É a mais pura das convenções.
Contudo, segundo essa tal natureza, é bem verdade que as horas de luz vão aumentando daqui para a frente. Para os amantes da noite pode ser uma perca, mas eu confesso que adoro as tardes enormes, as horas do entardecer que parecem arrastar-se numa grande preguiça, onde parece haver tempo para tudo. Viva a luz, aleluia vem aí o Verão.
M.L.

sábado, 27 de março de 2004

Partilha de Tarefas

Lido numa redacção infantil sobre definição de papeis numa família bastante tradicional:

"Um casal é formado na maior parte dos casos por um papá e uma mamã ou o inverso. Em geral um papá é mais inteligente, mas é a mamã que faz os bebés, o papá não tem tempo para isso…
Muitas vezes as tarefas são partilhadas: o papá deita-se primeiro, a mamã levanta-se primeiro. Como ela não precisa de fazer a barba, a mamã pode, durante esse tempo, preparar o pequeno almoço.
Embora o papá saiba cozinhar coisas muito boas, é a mamã que cozinha todos os dias. Mas por outro lado a mamã sabe melhor lavar a loiça e portanto é ela que a lava. O papá sabe melhor ler o jornal: portanto é ele que o lê. Ele não entende nada de crianças, portanto é ela que trata disso. Mas ela não entende nada de futebol, e portanto é o papá que assiste."
E viva a mamã!

M.L.

Solidariedade blogueira

Uma confissão pública: a internet ainda há muito pouco tempo era um mistério para mim. Bom, era e ainda é... Sou é atrevida e tenho sorte. Vou experimentando e às vezes consigo coisas. Contudo, estas coisas de links e imagens, metiam-me algum... digamos que receio. Mas lembrei-me de uma colega da blogosfera que se tinha mostrado simpática e atrevi-me a pedir-lhe ajuda. Foi a Sara de um blog que costumo visitar, e mesmo sem a conhecer mandei-lhe um S.O.S.
Impecável. Deu-me as indicações todas e acho que estou a conseguir. Não lhe posso oferecer nada de especial mas este por do sol é para ela com toda a minha gratidão!



Muito OBRIGADA, Sara.

M.L.

Das vantagens de ser-se mulher

Que ser-se mulher hoje em dia, é ainda uma desvantagem social, já todos sabemos e estamos conversados. Na sociedade ocidental este “mal” tem melhorado muito, mas há muito ainda para melhorar. Mas hoje venho pregar o discurso inverso. É que exactamente nesta sociedade também há aspectos onde ser mulher é uma vantagem. E vou falar de algo muito simples que é a psicoterapia mais barata e simpática que existe: um cabeleireiro.
É o meu maior luxo.
Vou sempre que posso a um magnífico cabeleireiro, casa que já existia nos anos 40, onde ia a minha avó, e continua igual. No coração de Lisboa (Rua Garrett) mantém a decoração arte nova com que foi decorado inicialmente, os azulejos com rosinhas, as cadeiras “de barbeiro” extremamente confortáveis, os lavatórios de loiça antiga. E o ambiente ! Nunca ouvi ali criticar o trabalho de um colega ( do tipo “Oh, quem lhe fez esse corte?!” ou “Tem o cabelo estragado, onde é que tem ido?” como se ouve noutros locais), existe um clima de simpática boa disposição, respeitam os nossos desejos embora ofereçam soluções diferentes por vezes. As revistas são actualizadíssimas e de qualidade, muitas vezes apanhamos o Expresso ou Público que a dona tinha comprado para si mas nos empresta. Como sabem que sou cafédependente, enquanto seco o cabelo aparece muitas vezes uma chaveninha de café no meu colo. Percebe-se o que quero dizer? É um ambiente muito feminino no seu melhor.
E digo que é uma psicoterapia porque de facto nos ajuda. Voltamos a ser crianças, há quem cuide de nós fisicamente. Fazem-nos festinhas na cabeça, vestem-nos uma bata, tomam cuidado para não nos sujarmos nem ficarmos molhadas como fazia a nossa mãe. Põem um banquinho debaixo dos nossos pés, ligam o aquecedor se está frio, abrem a janela se está calor. Uma pessoa sente-se envolvida em mimo e é muito bom. E ainda por cima ficamos com melhor aspecto o que também é excelente. Uma pontinha de depressão é atenuada se ao olhar para o espelho ele nos mostrar uma cara mais composta e agradável, não é?
Claro que também ajuda ao bem-estar, dentro de uma impecável e correcta boa educação, “sentirmos” que ali falam a nossa língua do ponto de vista sócio-político. Encontro frequentemente as minhas amigas naquela casa, o que nos dá vontade de rir quando, saindo dali em momentos diferentes, encontramo-nos sem o ter combinado, lá em frente na “Ler devagar”... Dizemos uma para a outra – Tinha de ser!
É mesmo verdade. Afinal o ter-se nascido mulher é uma vantagem!
M.L.


sexta-feira, 26 de março de 2004

Causa e Efeito

Parece que na nossa terra se casa menos. Menos do que dantes pelo menos, porque não sei bem qual o termo de comparação, se também é com outras paragens. Mas, pelo que li, os dados dizem que se registam menos casamentos
Li-o por aqui.(vamos ver se desta vez o link fica certo, que às vezes sai-me o tiro ao lado) Bom, casa-se menos. Contudo, honestamente, o amor não me parece em baixa, se olharmos à nossa volta tropeçamos constantemente em casalinhos a mostrar efusivamente o que lhes vai na alma. Mas então porque é que não casam? Para além do aspecto também conhecido do aumento das uniões de facto, casamento sem contrato escrito, há ainda muitos jovens que continuam uns namoros muito prolongados pelo facto tão elementar de não conseguirem pagar uma habitação para si próprios.
Tenho uma jovem amiga que "tem a sorte" de ter um emprego e o namorado também é um bom profissional e também tem emprego estável. Procuram uma casa, e imagine-se o civismo ( ! ) queriam num local com transportes razoáveis para evitar andar de carro. Têm andado por todo o lado sem nada lhes agradar muito. Recentemente tinham ficado mais animados porque lhes falaram de um empreendimento da EPUL que ia a licitação. Bom, pensaram, inocentes, se é da EPUL é natural que já seja mais acessível, vamos lá espreitar. Ontem falou-me. Só para rir, é claro! O T1 mais barato tinha licitamento de base de 40.000 contos; outro ainda T1, já andava pelos 60.000contos. Se este casal pensar ter filhos teriam que pensar era num T2 não é? Estamos mesmo a brincar... Já se imaginou o que é 60.000 contos de base ? Claro que podemos pensar "Quem quer luxos, paga-os!", mas atenção, isto é da EPUL. A vocação da EPUL não era fazer equipamentos para a alta burguesia, que eu soubesse.
Ainda dizem, e com razão, que hoje os jovens saem de casa dos pais cada vez mais tarde. Pudera. Mas sair para onde? Tudo indica que não será nos meses mais próximos que vou visitar a Dulce e o João no seu espaço próprio !
M.L.

Causas Naturais

Acabo de ler aqui esta notícia que me deixa muito perplexa. Mas... o quê, causas naturais??? Uma construção cai por causas naturais? Parece-me que ainda existem pontes romanas que estão de pé! Nem o tempo é uma "causa natural" e esta até era uma ponte recente. Se calhar estou enganada, mas tanto quanto me lembro, acho que na altura até "caiu" um ministro por causa dessa fatal ponte. O governo do PS teve a vergonha suficiente para assumir até erros dos quais não tinha uma culpa directa. Tinha culpa porque era governo, é claro, e não se podia por de fóra. Mas hoje em dia leio coisas que tenho de voltar a reler por não acreditar à primeira. Neste caso , que já tinha comentado mais abaixo, pode haver meandros processuais que um leigo em direito não entenda. Mas uma coisa é Direito como ciência, outra coisa é o que é justo e direito como moral. A culpa, ou se quisermos, a responsabilidade, tem de ser de alguém. Ela pode não querer casar, mas por favor solteira não fique. Pede-se uma união de facto, por favor!
M.L.

quinta-feira, 25 de março de 2004

Dois modos de olhar a lei

Sem querer voltar à discussão da morte do Sheik Yassin não posso deixar de pensar como há mesmo dois modos de pensar e duas civilizações. Que distância!!! Acabei de ler aqui em
Tribunais e Estados de Direito Democrático uma referência a um modo de tratar um criminoso que me parece normal. Há um crime, há um julgamento, e há uma condenação. Mas será que os suecos têm uns genes tão diferentes de grande parte da humanidade como isso? O que é necessário para se atingir aquele modo de pensar e aquela dignidade? Enfim, quero ser optimista e pensar que dentro de sabe-se quanto tempo mas algum dia, a humanidade terá aquela serenidade.
M.L.

Humor Negro

Todos conhecemos expressões que, porque são idiomáticas, se levadas à letra fica uma patetice. Isso torna-se muito evidente quando se traduz para outra língua uma dessas expressões. E, nessa linha de pensamento, ainda há momentos apanhei no ar uma conversa que se tornava perfeitamente cómica. Uma senhora dum quiosque de jornais conversava com um cego total, de bengala, óculos pretos e com uma postura que indicava ser completamente cego. Perguntava-lhe se tinha arranjado casa, pelo que percebi. Resposta: " Ná... Ainda não! Tenho ali uma em vista, mas ...." e a outra lá o incitava : "Mas vá vendo mais!"
Fazia todo o sentido essa busca, é claro, mas bolas se o homem era cego ! ! !


M.L.

O meu negócio NÃO são números....

Entre algumas visitas que naturalmente vou fazendo aqui pela blogosfera, ritual quase diário que creio que todos fazemos, encontrei alguém que "festejava" o centésimo post. Pareceu-me um bonito e redondo número, escrevi qualquer coisa simpática na caixa de comentários e fiquei-me a pensar em quantos teria eu própria escrito.
Bom, de curiosidade espevitada, decidi-me a contá-los. Oh surpresa! Já há dias que passei os tais cem! E sem contar com alguns que apaguei por não ter conseguido fazer os links que queria e dariam sentido ao texto. Aqui, em casa emprestada por simpático senhorio que não cobra renda nem me critica nada ( o blog é dele, não o esqueçamos....) como tenho mantido uma escrita regular isto foi-se acumulando. Ri-me sozinha, de espanto. Ele há cada uma...
Porque, já que me sinto em maré de confidências, o meu trabalho até é muito intenso e absorvente mas não tem mesmo nada a ver com informática, nem jornalismo, nem política, nem qualquer tipo de informação. Nem sequer tenho net ligada no local de trabalho! Este blog é a minha válvula de escape. Acho que comecei a escrever aqui porque o que queria dizer, muitas vezes, não cabia bem nas caixas de comentários dos meus blogs favoritos. Isto, mal comparado, para mim era como que uma Caixa de Comentários king size e sempre às minhas ordens. Mas depois uma coisa puxa outra e às tantas, exigente, lá fui pedir ao senhorio se me criava uma caixa de comentários a sério, também aqui. Super-simpático, fez-me a vontade e apareceu logo o "atira-lhe um osso" que de vez em quando recebe de facto uns ossos e até com alguma carne agarrada. Todos sabemos que isso dá muito prazer, porque é a prova material de que alguém passou por aqui e se deu ao trabalho de ler o que escrevemos.
E, aqui para nós, esse é o ponto que verdadeiramente conta. Se me "colocar no meu lugar" como se costuma dizer para tirar o pó aos convencidos, o que devia mesmo contar eram só esses comentários, porque quanto ao resto poderia ser um exercício de umbiguismo. E comentários mesmo, se calhar nem um dúzia tenho. Flop,... lá venho eu por aí abaixo. Bem feita, para não me pôr com contagens, que já disse mesmo que o meu negócio não são números.

M.L.

quarta-feira, 24 de março de 2004

Sentenças insensatas

Li ontem uma local no Público, e mais tarde assisti a uma reportagem na Sic, sobre o resultado do julgamento de um agente da polícia que matou um jovem no Bairro da Bela Vista. Esta notícia deu origem a um post no Barnabé com dezenas e dezenas de comentários. Há para ali muita coisa que me deixa perplexa. Entre os tais comentários muitos deles inseriam-se numa mesma linha. Sumariamente diziam:
"Vocês não sabem do que estão a falar porque não dominam a matéria em causa; não são de direito" ou
"O tipo era um facínora o polícia defendeu-se e fez muito bem" ou
"Não podemos acreditar no que se diz nos jornais, só se podia ter opinião se tivéssemos estado no tribunal"
Bem, vamos partir do princípio que os media servem para informar. Muitas vezes informam mal, mas a verdade é que ainda é a fonte que todos temos. O cidadão comum não pode ir à origem da notícia ( e mesmo então também se pode enganar...) Analisando essa notícia o que se vê é que um cidadão representando a autoridade e armado, abateu outro cidadão. Tão simples como isso. A desculpa, ou uma das desculpas, do assassino foi de que não sabia que "aquilo" podia matar. E é isso que nos faz pasmar. Que haja polícias armados com armas que desconhecem e que o tribunal considere isso como uma atenuante, até para evitar indemnizar a família da vítima!
Ou eu estou enganada ou até os acidentes implicam indemnizações. Se uma pessoa for na rua e lhe cair um vaso em cima, o dono da janela onde estava o vaso, mesmo que não estivesse em casa, terá - e muito bem - que indemnizar o mal que fez. Num desastre de automóvel, se uma pessoa fica ferida, a companhia de seguros é obrigada a reparar económicamente esse dano. O dono de um cão é responsável pelos estragos que ele realizar. Então como é possível, um polícia estar acima dos comuns mortais, e dizer inocentemente "Opppps!..Não sabia que isto aleijava... Desculpem lá!"
Entre os muitos comentários que li, vários iam no sentido de que o morto era mau e o polícia era bom. Voltei ao Jardim de Infância. Estamos afinal a brincar aos polícias e ladrões. Mas de volta ao mundo real, parece que isso não é tão consensual como isso, e há para aí uns testemunhos a dizer que o rapaz até queria separar os outros que estavam à luta, etc.
Acho que isso não interessa, são pontos menores do folclore. O que me parece é que a nossa polícia deve andar cheínha de medo ( só pode!) mas tem a obrigação de conhecer as armas de que dispõe. Se não são eficientes, ou são eficientes demais, tratem disso. E quando se faz uma burrada, não deve saltar logo o espírito corporativo e sim assumir as consequências do que fez. A ser certo o desconhecimento da perigosidade da arma, então seriam as chefias a indemnizar a família da vítima. Só que parece que vivemos numa terra onde o maior irresponsável é mesmo o Estado.

M.L.

Cuidado com as generalizações...

A propósito de uma polémica assanhada, ontem no , BdEpor causa de um post infeliz do Filipe Moura, senti que cada vez tenho mais razão na cautela que costumo ter nas generalizações. Não estou completamente isenta desse pecado, é claro, mas faço muita força para que, conscientemente, não caia nele. Quanto mais velha, mais consciência tenho de que nunca se pode pensar ou dizer "todos os.[............] são assim, ou assado ". Não há nada, mas nada mesmo, que não tenha muitíssimas excepções e são sempre elas que nos caem em cima quando nos julgamos cheios de razão. Vou mesmo mais longe - só há uma afirmação que se pode generalizar, e estudei-a na lógica clássica : "Todos os homens são mortais". É a única! Claro que até aqui há excepções, mas só na literatura "Tous les hommes sont mortels" da Simone de Beauvoir, ou Orlando da Virgínia Woolf, mas na vida real essa generalização está, até ao momento, confirmada. E mais nada!
Claro que no calor de uma discussão nos salta sem querer, "os funcionários públicos são assim", "os emigrantes são assado", "os franceses isto", "os homossexuais aquilo", e mais "os políticos" e os "do norte" e os ... e os... e os...nunca mais acabam as gavetas/ ficheiros onde se enfia uma categoria de pessoas. Depois é claro que quanto maior fôr o grupo maior é a hipótese da asneira. Se calhar ao falar dos vizinhos do meu prédio, se eu disser que são "todos" qualquer coisa, tenho menos hipótese de errar, e mesmo assim... vá-se lá saber.
O caso que desencadeou estes pensamentos é dos mais complicados porque falar-se de "judeus" é falar de um grupo gigantesco, muito disperso, onde cabe mesmo tudo. Da política, às artes, à ciência, ao humor, há judeus fantásticos, há uns estupores e há uma multidão de gente completamente anónima que em nada se distingue de outro ser humano qualquer.
E tem graça pensar que os maiores de todos os grupos são os que na linguagem corrente mais sofrem de generalizações. Falo de Homens e Mulheres. Qual a mulher que não diz "Isso é mesmo de homem!", ou "todos os homens são iguais!"; qual o homem que não diz "é mesmo de gaja!" ou "isto só de mulher!". E o mais curioso é que estes desabafos quando ocorrem de um sexo para o outro, são sempre críticas. Mas se estivem com atenção reparem que, pelo contrário, na boca de uma mulher ouvir-se "só uma mulher para fazer isso..." então é mesmo um elogio! O ser humano é complicado, não é?
M.L.

Olho por olho? Mas de quem são os olhos?

Olho por olho? Mas de quem são os olhos?
Desde a notícia da morte do Sheik Yassin que, como de costume, quer na imprensa quer aqui na blogosfera as opiniões se dividiram imediatamente em dois blocos antagónicos. E cada um, ainda a notícia não tinha sido completamente ouvida já tomava posições inteiramente radicalizadas. Sobretudo a ala direita disse logo: Era do Hamas, era um terrorista, muito bem feito! e, pelos vistos, até pessoas que costumavam pensar primeiro antes de falar alinharam pelo mesmo diapasão.
Isto a mim, faz-me confusão. É certo que também tenho a palavra fácil, e nem sempre recolho toda a informação possível antes de dar a minha opinião um pouco no ar. Mas este é um caso onde me parece que as implicações são tantas que se lhe deve tocar com a maior cautela. E desde já aviso que estou a dar a minha opinião, mas ela está sujeita a, ao pensar melhor, vir a alterá-la um pouco.
Mas o que me parece é que este não foi um acto de retaliação simples. Tipo "Mata-se o bicho, acaba a peçonha!" Esta é uma acção política e muito séria. E o pensar que este acto em si foi um erro não significa que se tenha muita pena da criatura, que por fim teve mesmo a morte que desejava. Que sorte a dele! Só que há muita coisa para entender. Pelo que tenho lido por aí, este homem já esteve preso nas cadeias israelitas e "foi trocado" por uns prisioneiros considerados importantes. Nessa altura podiam tê-lo julgado pelos seus crimes e até segundo a lei, creio que executá-lo. Mas não o fizeram. Para mim os tribunais servem mesmo para julgar as pessoas, existiu Nurenberg e "parece" haver um T.P.I. Mas nessa altura isso foi esquecido e o homem foi útil como moeda de troca.
Mas não. Esperaram a saída de um acto religioso, e onde ele estava rodeado de pessoas para, do ar sem grande risco para os executantes, o matarem a ele e aos acompanhantes. Aparentemente queriam fazer um mártir. Ou se não queriam então foi um erro de palmatória. Passa pela cabeça de alguém que aqueles jovens, educados para serem kamikases, vão ficar amedrontados com isto? Não será previsível que, exactamente com esta acção, fiquem cheios de um fervor religioso e intensifiquem brutalmente esses atentados?
Não percebo nada de estratégias de guerra, mas o meu bom senso levanta algumas questões
- com o poderio militar utilizado não seria possível mais simplesmente prender o homem?
- Mesmo que ele resistisse à prisão não seria menos chocante para os seus apoiantes que ele morresse nessa luta do que assim, a sangue frio?
- Acreditando na valentia israelita e que não têm medo das represálias parece correcto ir por em risco a vida de tanta gente com este gesto de desafio?
Mais uma vez repito que não tenho particular pena do Sheik e acho que lhe fizeram um favor. Mas temo o efeito de boomerang.

M.L.

segunda-feira, 22 de março de 2004

Linguagem e gerações

Não resisto a acrescentar um comentário a propósito do post que escrevi mesmo aqui em baixo.
Uma pessoa amiga que, apesar do meio anonimato das iniciais, sabe que sou eu que vou escrevendo no “Cão de Guarda”, no meio de um telefonema sobre outro assunto referiu o conteúdo do que eu tinha escrito hoje mostrando o seu acordo. Acrescentava apenas que só não percebia o que eu queria dizer com isso do governo fazer o Rendimento Social de Inserção ficar espartilhadíssimo. Que palavra era essa? Lá disse que seria o superlativo de espartilhado. Mas...es-par-ti-lha-do ? Como? De dúvida em dúvida percebi que era mesmo o espartilho que provocava a confusão. Meio incrédula lá lhe pergunto se nunca tinha ouvido a palavra. Que sim, associava-a a romances de Eça de Queirós mas não sabia bem o que queria dizer.
Bom, reconheço que há realmente uma certa diferença de gerações. Para mim o termo saiu-me naturalmente, mas se calhar é melhor deixar explicado que queria dizer“muito apertado” quase que “estrangulado”.
A verdade é que os tais espartilhos eram, do ponto de vista das mulheres de hoje, verdadeiros instrumentos de tortura que apertavam o corpo de uma desgraçada de modo a ficar com uma cintura minúscula à custa de uma enorme pressão. Hoje respiramos fundo por a moda ter desaparecido.
Contudo, se calhar não foi por acaso que me surgiu aquela imagem. Devia lá meu sub-consciente estar a pensar no terrível apertar de cinto a que todos temos sido submetidos.
M.L.

O Rei Vai Nu

É interessante como uma reportagem num jornal e, pelos vistos, uma peça que passou numa cadeia televisiva (eu não vi, por isso falo de cor) parece fazer com que toda a gente se dê conta de algo que entrava pelos olhos a dentro - que a miséria e pobreza tem alastrado de um modo alarmante. Mas bastava somar 2 mais 2. Se é conhecido o problema do endividamento das famílias portuguesas, se o desemprego aumenta como se vê, se não existem primeiros empregos para quem acaba a sua formação, o que é que se esperava?
E quanto ao endividamento, vamos lá com calma, se é certo que muita gente é uma compradora compulsiva espicaçada pelo publicidade que sugere de todas as formas o “compre-agora-e-pague-depois”, a verdade é que as grandes, mesmo grandes dívidas, se encontram no sector da compra de habitação que é um bem de primeira necessidade. No actual momento, quando uma renda vai custar o mesmo que uma amortização bancária, quem precisa de um tecto acaba por o comprar! E para aí vai o ordenado de um dos membros da família. Portugal tem um mercado imobiliário que não tem em conta a média geral dos nossos rendimentos.
E que a antiga “classe média” se tem evaporado é óbvio. Ainda há uns restos, não sejamos completamente radicais, mas emagreceu muito á conta dos novos pobres. E mete bastante raiva o discurso enfastiado de uns senhores que displicentemente dizem que “eles” não querem é trabalhar, esses pobres são mas é uns grandes preguiçosos!
A entrevista do Padre Agostinho Jardim ao Público faz mais pela imagem da Igreja do que todas as missas rezadas neste mesmo domingo. Ele teve a coragem de mostrar a nudez do Rei. O Rendimento Mínimo, crismado agora de R.S.I. foi espatilhadíssimo, porque o que se pretende é acabar de vez com a medida mais generosa que o PS criou. Tinha erros, sem dúvida. O maior era não ter dado condições de ser convenientemente seguido e vigiado. Permitiu vigarices, também é verdade. Há gente que o recebia ou recebe e não precisa. Mas tudo o que se investiu num programa conhecido há uns tempos por Programa de Luta contra a Pobreza, quem presta contas disso? O que é feito dos dados? Mesmo num critério economicista não será que a luta contra a evasão fiscal daria mais lucros do que o controlo do pobre do R.S.I.? Todas as economias paralelas que não há quem não conheça, os trabalhadores por conta própria que se auto-declaram para efeitos fiscais com o ordenado mínimo, será que ninguém reparou?
Infelizmente foi preciso atirar-se com um número chocante através de uma reportagem para as pessoas se começarem interrogar
.M.L.

domingo, 21 de março de 2004

Edward Said

(prefácio a Palestina – Na Faixa de Gaza, de Joe Sacco)

Não me lembro exactamente quando li a minha primeira banda desenhada, mas lembro-me exactamente da sensação de liberdade e subversão que me provocou. Tudo no atraente livro de imagens coloridas, mas especialmente o seu formato desalinhado e aberto, o colorido extravagante das imagens, a passagem livre entre o que as personagens pensam e dizem, as criaturas e aventuras exóticas relatadas e desenhadas: tudo isso contribuiu para um enorme e maravilhoso encantamento, totalmente diferente de qualquer outra coisa que até aí eu tivesse conhecido ou experimentado.

Sábado movimentado

Ontem tive um dia particularmente cheio e diversificado. Para além das indispensáveis actividades domésticas dos sábados de manhã, passei toda a tarde na manifestação e, mal tinha chegado a casa, telefonam-me a perguntar se quero aproveitar um bilhete a mais para o Ballet da Gulbenkian o que me deu apenas tempo de trocar de sapatos e chegar lá mesmo antes de fecharem as portas do auditório.
Quanto à manif não vale a pena falar. Durante o desfile cheguei a acreditar que as pessoas chegassem para encher a praça, mas quem lá esteve viu que de facto não chegaram. O momento mais quente e emocionante foi quando uns operários a trabalhar numas obras, mesmo do alto do prédio, acenaram e mostraram uns cartazes de apoio. Não podiam estar ali naquela altura, que tinham de ganhar a vida, mas apoiaram. E também foi interessante o leque de idades: muita gente de cabelos brancos, enrugada e cansada, e muitas cadeirinhas de bebés de olhos arregalados que obviamente não sabiam onde estavam mas os seus pais, jovens, sabiam. Contudo para quem esteve nas duas, a de há um ano atrás e a de ontem, é inegável que esta foi mesmo mais fraca. Não valia a pena tanta mobilização de raiva das forças de direita.
Mas o que motivou este post foi um pormenor da minha noite. O ballet foi interessante, embora eu não aprecie muito a música contemporânea. De uma forma geral gosto muito de arte moderna excepto a música; aí sou um bocado tradicional. Mas o bailado em si foi muito bom e valeu muito a pena a deslocação. O interessante, o tal pormenor que referi acima, foi o facto de os bailarinos não virem referenciados a não ser em bloco, e por ordem alfabética. Em cada bailado, o programa dizia quem era o coreógrafo, o cenógrafo, o figurinista, etc. mas nada de bailarinos. Numa página única estavam todos os seus nomes e as fotografias.
Eu fiz uma interpretação que não sei se está correcta. Se um bailarino nos marca, então fixamos a pessoa e pela foto encontramos o nome. Digamos que é o reconhecimento do mérito. Se, por acaso, ele não nos marcou, se não somos capazes de o identificar, então nem vale a pena conhecer o nome... Será isto? Se não é, podia ser.

M.L.

sábado, 20 de março de 2004

Começou há um ano, lembram-se?

Faz hoje um ano que começou a Guerra no Iraque.
Era para ser uma guerra super rápida, com objectivos “cirúrgicos” como se dizia, que praticamente nem atingia os civis. Chamavam-lhe uma Guerra Preventiva, porque aquele país se preparava para atacar os outros com umas temíveis armas que em 20 minutos espalhariam a morte em todo o mundo. Como os inspectores que as Nações Unidas tinham nomeado tardavam a encontrar provas destas fortes convicções, o governo dos Estados Unidos, aliado ao da Grã-Bretanha e ao de Espanha, avançaram nessa guerra “defensiva”. Isto, ao arrepio da organização que representa todo o resto do mundo, a Organização das Nações Unidas.
Essa guerra começou há um ano, e como não foi declarada nenhuma paz, é porque ainda não acabou. Terminou, realmente, com o reinado do sanguinário ditador Saddam e daí com o embargo que desde a guerra do golfo tinha piorado muito a vida dos iraquianos, mas creio que, apesar de com mais liberdade de expressão, lá no Iraque ainda se vive bastante mal. Era - e é - uma terra com formas de violência terríveis, onde as minorias são gravemente oprimidas. Mas a verdade é que se as tropas americanas fizeram umas entradas de leão, não parece terem pacificado coisa nenhuma. Hoje, talvez reconheçam que teria sido mais avisado esperarem pela opinião das Nações Unidas que foram tão seriamente desautorizadas. Porque neste momento a entrada dessas forças de “capacetes azuis” é muitíssimo mais difícil, como infelizmente se viu. Os generais americanos abriram a “caixa de Pandora” e não conseguem voltar a fechá-la.
Em memória destes acontecimentos, organizam-se hoje por todo o mundo, manifestações relembrando esta triste guerra e gritando contra o terrorismo.
Como a promoção, quer a nível internacional quer nacional, tem conotações com posições de esquerda, logo as outras forças se perfilaram num contra-ataque, quase mesmo sem querer saber o que estava em causa, numa atitude de se-vem-dali-deve-ser-mau ! E tem-me chocado uma técnica, que pelos vistos resulta, de aproveitamento de uma porta aberta. Como os convites para a manif foram maioritariamente enviados por sms, começaram a circular outros sms, montados com habilidade, e convocando para a mesma manifestação mas usando palavras de ordem erradas e de um tal extremismo que afastaria a pessoa menos informada. Já tenho lido, aqui e ali, nestes blogs, comentários que dizem “Eu até pensava ir, mas francamente, dizer-se [ ....] assim não concordo!” Pronto! Fizeram uma sabotagem impecável, tiro-lhes o meu chapéu. Só que são bons sabotadores mas nem por isso ficaram com mais razão. Foi a vitória da esperteza, não da razão nem da inteligência.

M.L.

sexta-feira, 19 de março de 2004

Uma emenda

Voltei a passar por aqui e ao reler o que escrevi dois posts abaixo fiquei com muito má consciência. Mesmo muito má. Porque chamei a atenção para o aspecto “consumista” do Dia do Pai, o que continuo a achar censurável, mas fiquei-me por aí. E a verdade é que Dia do Pai ou Dia da Mãe são dias bonitos. Porque é um encadeado de relações geracionais, de grande ternura e que a todos sabe bem. Mesmo quando existem conflitos, e isso é frequente e é natural, este é um dia de tréguas.
Se ainda somos crianças é uma imagem forte, o Pai é idealizado, a pessoa que sabe tudo, que pode tudo, que podemos sempre (pelo menos em imaginação) chamar em nosso socorro – “Olha que eu digo ao meu pai!”. E nos dias de hoje, o pai em muitos casos deixou de ser aquela figura autoritária e distante que era uma referência antigamente. Para os meninos de hoje, Pai relembra sobretudo ternura, compreensão, carinho, protecção.
E depois é importante lembrar que estes Pais têm também os seus próprios pais. Mais cansados, menos fortes, menos ideais, mas por quem também se sente uma grande ternura e muito amor. Mesmo quando já desapareceram, estão sempre vivos no nosso coração, na nossa saudade, na nossa memória.
Bom Dia para todos os Pais, e parabéns por o serem
M.L.

Brincadeiras e nada mais

Através de um bloguista que já nem sei identificar porque fui passando de link em link, cheguei a um site chamado The Political Compass que entre várias coisas propunham um divertido teste (?) às nossas tendências esquerda / direita em áreas económicas e sociais.
É mesmo muito engraçado. Eu não sei fazer um link a sério, ( de qualquer modo o endereço é: http://www.digitalronin.f2s.com/politicalcompass/index.html
e assim chegam lá de certeza)
Mas o que me faz sorrir, é que nestas coisas confirma-se sempre o que já se sabe! Na grelha final a minha bolinha encarnada ficou exactamente a meio do quadrante de baixo à esquerda. Até é engraçado tão centradinha está. Mas se fosse outro resultado, está-se mesmo a ver que eu dizia logo: “Olha o disparate! Esta gente está parva, ou quê?”. Isto para se voltar sempre ao mesmo que poderemos influenciar ou convencer indecisos, mas fazer alguém convicto, mudar de opinião é tarefa quase impossível.
M.L.

Homens e Máquinas

Ultimamente tenho utilizado bastante um novo serviço que o meu Banco inaugurou em benefício dos seus clientes. É um aparelhómetro, que além das funções das antigas Caixas Multibanco, também permite depositar cheques directamente, sem se preencher nenhum papel. Muito prático. E temos de reconhecer que rápido porque evita as bichas ao balcão. Assim, cada um trata de si e pode utilizá-lo segundo as suas conveniências, mesmo quando o Banco está fechado.
Mas vinha andando pela rua e a reflectir que se isto é um benefício deste ponto de vista, também é certo que diminui os encargos do Banco com pessoal. Estas máquinas, multiplicadas por todas as agências, podem significar despedir, ou não contratar, muitas pessoas que precisam de trabalhar. E este mundo cada vez é mais impessoal e já começa a ser quase alarmante a não-necessidade de contacto humano para as mais corriqueiras acções do dia a dia.
Quando as grandes superfícies substituíram as lojas de bairro, deixámos de pedir 1 quilo de arroz ou meia dúzia de ovos ao Sr.Manel, que nos conhecia e com quem conversávamos, para nos servirmos a nós mesmos e só trocar um rápido Bom Dia com a menina da caixa, cujo nome se sabe por estar escrito na bata, menina que varia com frequência.
Com a chegada do passe social e os módulos de transporte, desapareceu a figura do "pica-bilhetes" que, para além do motorista, nos acompanhava na viagem e vendia os bilhetes ali mesmo, na hora, picando a paragem para onde se seguia. Hoje, a picagem dos bilhetes é mecânica, feita por máquina.
Já se pode dizer que são a maioria, os cinemas cujos espectadores se arrumam sozinhos. O arrumador existe para verificar se trazemos bilhete e, por vezes, se chegamos já com o filme a decorrer, dá um jeitinho com a lanterna para nos descobrir um assento vago.
Podia continuar, mas acho que já chega para se ver onde quero chegar. Não sei nada de economia portanto acredito que tudo isto terá de ser, que é progresso, rentabilização das pessoas, etc. Mas é também uma desumanização do mundo. Como não é indispensável falarmos uns com os outros, ( temos as máquinas) vemos para aí gente a falar sozinha, a responder a um locutor que está a falar na televisão ou, por fim, a recorrer a um psicólogo quando a ansiedade é muita. Se calhar há que repensar algumas coisas.
M.L.

Mais DIAS famosos

Hoje, 19 de Março, convencionou-se ser o Dia do Pai. Fica sempre de pé a ironia de se escolher para padroeiro aquele santo que de certeza NÃO era pai, era apenas marido de uma mãe. Por mim, este devia ser o dia dos Santos Maridos.
Por essas escolas e infantários do país as educadoras põem os seus meninos a fazerem prendas para dar aos pais. E, coitadas, bem se esforçam a tentar imaginar qualquer coisa de novo porque entre as capacidades de execução das criancinhas e os estereótipos do que se deve "dar a um homem", a gama possível não é nada variada. Há o desenho emoldurado, o porta chaves, o pisa-papeis, o marcador de livro, ... É claro que, como rapidamente o comércio se apoderou desta festa, depois vem a prenda comprada pela mãe, que as crianças que já não estão em infantários exigem, coisa
a sério. E eu fico parva quando folheio uma revista ou olho para uma montra e reparo nas propostas de prendas para o Dia do Pai! Numa óptica minimamente pedagógica, estes deveriam ser objectos acessíveis a uma mesada de um jovem, mesmo que esta fosse um pouco reforçada pela ajuda económica da mãe. E poucos miúdos de 10, 12, 14 anos tem mesadas para comprar colónias de 50 euros, máquinas de barbear de 85 ou berbequins de 100 euros! Eu sei que o comércio tem de funcionar e também dá emprego a muita gente, mas haja bom senso.
M.L.