Este filme, fui vê-lo a conselho de uma colega que sabia que eu tinha gostado imenso de dois outros, canadianos, passados há uns meses no Quarteto e com a particularidade de sendo dois filmes distintos, fazerem uma continuação. Refiro-me a “A Queda do Império Americano” e “A Invasão dos Bárbaros”. Acho que lá mais para baixo lhes dediquei um post, porque gostei muito e achei a ideia genial de, com vinte e tal anos de intervalo, encontrar os mesmos actores e agarrar as mesmas personagens.
Desta vez a colega enganou-se. Não tem nada a ver com o outro exemplo. Trata-se de um único filme, simplesmente como leva seis horas a ser exibido está dividido em duas partes. E é italiano o que marca toda a diferença.
Será muito forçado fazer comparações, mas este está mais na linha do “1900” do Bertolucci. Aliás tudo se interliga, porque o título do filme “La Meglio Gioventù” é tirado de um conjunto de poemas de Pasolini, também um realizador de culto (pelo menos para mim)
À chegada encontramos dois irmãos no finalzinho da adolescência e, ao fim de umas horas passadas na sua companhia, despedimo-nos já de um avô, embora acabado de casar. Ao longo desta vida e das que lhes estão associadas passa a história da Itália, da Europa, do Mundo. Está lá tudo. Esperanças, lutas, coragem, resignação, conformismo. Perspectivas femininas e masculinas do mundo. Discussão de estereótipos. O ponto de vista de crianças e de velhos. Opções contrárias perante o mesmo desafio. A sociedade e a forma de encarar a doença mental. Ao longo daquelas horas recordamos todas as canções que foram famosas ao longo de 40 anos...
É uma Itália viva, - futebol, máfia, acidentes naturais como as cheias, crise, desemprego, desunião em famílias. Muitas dúvidas sobre o certo ou errado – uma mãe que deixa a filha para seguir as Brigadas Vermelhas. Achou que lutava melhor pela filha daquele modo? O pai de um médico morre de cancro. Onde está a ciência, nestas horas? Uma mulher, mãe e professora, grandes olhos tristes, 4 filhos adultos e sempre boa profissional e disponível apesar de em permanente discussão com o pai. Tantas mulheres como esta que conhecemos!
Violência, terrorismo, crimes de colarinho branco. Como defeito, achei que um dos irmãos, Nicola, possivelmente o protagonista se é que os há neste filme, é talvez excessivamente perfeito! Os possíveis erros que comete são-no por excessivo respeito pela vontade dos outros. A violência complicada do irmão Matteo que não encontra caminho virando-se para si mesmo, é vista também como uma fuga por alguém que lhe diz: “Já sei porque gostas tanto de livros. É que eles podem fechar-se quando queremos. A vida não!” Ele decide que pode não ser assim. E é também uma grande história de amor, como se adivinha. Mas é sobretudo uma lição de História.
Já viram que isto é apenas um enunciado de pontos importantíssimos que o filme foca. Não é uma crítica, são as minhas impressões. Muito vivas ainda. E também um conselho: se vivem em Lisboa percam/ganhem ( ? ) duas noites ou duas tardes e vão ao King. Saem de lá mais ricos.
M.L.
Há poucos dias, estava numa reunião com várias pessoas que tratavam de projectos na área da infância, quando uma deles a referir-se a determinada instituição, teve um acto falhado que provocou um ataque de riso contagiante. Para quem entrasse desprevenido, seria um verdadeiro espectáculo ver dúzia e meia de pessoas com idade para terem juízo, sem serem capazes de parar de rir. E tudo porque alguém, candidamente, em vez de dizer, como tinha imaginado, que os nossos superiores pretendiam "extinguir" determinado serviço, tropeçou na palavra e disse “...como querem exterminá-lo” Podem imaginar a galhofa que por ali foi. Todos fomos contribuindo com algumas brilhantes ideias para transfigurar o ministro Bagão em Schwarzenegger.
Pronto. Se calhar há muita outra gente com responsabilidades, se calhar os países mais desenvolvidos deveriam pensar nas consequências de certas políticas que tomam levianamente, se calhar mesmo países com mais recursos do que nós também foram atingidos. Ouvi tudo isso, e concordo. Costuma-se dizer que da primeira todos caem mas da segunda cai quem quer... Ou seja, por outras palavras, uma primeira vez podemos ser apanhados de surpresa ( ? ) mas daí para a frente é mesmo puro desleixo, para não lhe chamar crime. E isto já é dito com alguma boa vontade, que desde que me lembro sempre ouvi falar de incêndios de Verão, com maior ou menor dimensão... E confirmo que algumas das causas que motivaram os incêndios do Agosto passado continuam perfeitamente activas: as matas por limpar, os aceiros impedidos, o lixo acumulado. Basta aparecerem outra vez meia dúzia de incendiários para o que restou das nossas matas desaparecerem.
Não sei se alguém se lembra de dois filmes franceses ( ou podemos considerar um, “duplo” ? ) que passaram já há uns anos nos nossos cinemas, chamados, exactamente, um deles "Fumar" e o outro "Não Fumar". Era quase um exercício de estilo, uma história contada e recontada por diversas personagens sob o seu exclusivo ponto de vista. No filme "Fumar" toda a gente fumava. No filme "Não fumar" a história era rigorosamente igual mas ninguém fumava. Creio que o filme era do Resnais, mas já não vou jurar. Era leve, engraçado e nada tonto porque o que demonstrava era a enorme subjectividade com que se encara o grosso dos acontecimentos que nos rodeiam, a história era um caleidoscópio de opiniões.
